À medida que o hype em torno da inteligência artificial perde intensidade em 2026, é a maturidade operacional que passa a ganhar protagonismo. É o que projeta o estudo da Deloitte sobre o setor de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações (TMT), que também afirma que a distância entre promessa e realidade começará a diminuir, impulsionada por avanços menos “glamorosos” em fundamentos. Essa inflexão ocorre justamente quando o TMT se consolida como o setor mais valioso do mundo e a IA assume posição estratégica no desenho das organizações.
O relatório apresenta 8 tendências que, em conjunto, revelam uma transformação na participação da IA, que migra de uma experimentação para um processo de maior higienização de dados, governança, integração com fluxos de trabalho e conformidade regulatória para ganhar escalabilidade. Entre as previsões da Deloitte, destacam-se ainda os investimentos em data centers, o avanço dos agentes autônomos e a pressão geopolítica sobre semicondutores.
Uso integrado da IA supera a utilização isolada
A primeira previsão indica que a forma mais comum de uso da IA generativa não será isolado, mas integrado a aplicações existentes. Mecanismos de busca, por exemplo, utilizam IA para apresentar resultados sintetizados e serão até 300% mais frequentes do que o uso de tecnologia de maneira independente.
Uma das explicações reside na familiaridade com interfaces integradas, que facilitam o uso e, portanto, são mais adotadas. Já as plataformas isoladas exigem domínio de engenharia de prompt, o que tende a afastar os usuários comuns. Isso coloca desenvolvedores de IA diante do dilema de manter experiências isoladas ou integrar suas tecnologias a outros ecossistemas.
Mais poder computacional
Contrariando análises que apostavam em mais computação de borda para o usuário, a Deloitte afirma que a computação em data centers ainda será dominante. Até 2026, dois terços de toda a capacidade computacional dedicada à IA serão usados para inferência, apoiados por chips de alta performance avaliados em mais de US$ 200 bilhões. O movimento reforça a dependência de energia, infraestrutura, refrigeração avançada e cadeias complexas de semicondutores.
O salto dos agentes autônomos
Agentes autônomos de IA, softwares capazes de executar tarefas de ponta a ponta, avançam para um mercado estimado em US$ 8,5 bilhões em 2026, podendo alcançar US$ 35 bilhões em 2030. Para a Deloitte, a chave não está apenas na criação desses agentes, mas em sua orquestração. A consultoria projeta que empresas que investirem cedo em sistemas multiagentes terão ganhos desde que invistam em interoperabilidade e gestão desses sistemas.
Futuro da indústria de robôs
Embora a indústria de robôs industriais esteja estagnada desde 2021, com remessas anuais pouco acima de meio milhão de unidades, a capacidade instalada cumulativa global pode chegar a 5,5 milhões em 2026. O ponto de inflexão deve ocorrer por volta de 2030, impulsionado pela escassez de mão de obra em países desenvolvidos, pelo desenvolvimento computacional e por modelos de IA especializados.
SaaS entra na era dos agentes
A convergência entre SaaS e agentes de IA marca uma inflexão estrutural no modo como empresas operam, alocam recursos e extraem valor de aplicações digitais. Com a maturação da IA ativa e a capacidade dos provedores de criar, integrar e orquestrar agentes autônomos, o software deixa de ser um conjunto de funcionalidades estáticas para se tornar um ecossistema vivo de serviços que aprendem continuamente. Essa transição projeta um 2026 em que os aplicativos SaaS operam como federações inteligentes de fluxos de trabalho em tempo real.
Modelos tradicionais de precificação, com cobrança por usuário, devem migrar para combinações de consumo e performance. O estudo não descarta que, no longo prazo, parte do SaaS empresarial seja substituída por combinações de agentes orquestrados atuando sob demanda.
Semicondutores sob tensão geopolítica
A cadeia de suprimentos de chips avançados de IA continua sendo um dos maiores pontos de atenção, dada a concentração de recursos críticos para as tecnologias em poucos fornecedores globais. Com isso, em 2026, a consultoria prevê que novos gargalos surgirão, agravados por barreiras comerciais impostas a fim de proteger tais recursos e diminuir a dependência de outros países.
A corrida global por soberania tecnológica
Países e blocos regionais fortalecem investimentos em nuvem, IA, semicondutores, comunicação via satélite e data centers, mirando a soberania tecnológica. O objetivo é reduzir vulnerabilidades em um cenário geopolítico instável. A Deloitte indica que, embora a soberania total seja improvável, a busca por maior autonomia deve moldar políticas industriais e tecnológicas ao longo da década.
Vídeo de IA como desafio regulatório

Com qualidade próxima à de produções profissionais, vídeos gerados por IA devem pressionar reguladores. A Deloitte prevê exigências de rotulagem, verificação de idade mais rigorosa e debates sobre a revisão de proteções legais aplicadas a plataformas sociais. A tecnologia tende a impulsionar criadores independentes, mas também “corre o risco de sobrecarregar o público, corroer a autenticidade e alimentar a desinformação”.
