A transformação das cidades brasileiras em ambientes mais conectados, eficientes e sustentáveis é uma tendência que surgiu acompanhada de uma necessidade estratégica. Impulsionadas por tecnologias como 5G, Internet das Coisas (IoT) e análise de dados, as chamadas smart cities ganham espaço no debate público e no planejamento urbano, visando o bem-estar da população e um controle dimensionado do governo. Mas afinal: estamos prontos para este novo momento das cidades?
As smart cities ou cidades inteligentes são aquelas que utilizam tecnologia e dados para melhorar a qualidade de vida da população, otimizar recursos e tornar a gestão pública mais eficiente. Segundo a International Telecommunication Union (ITU), uma cidade inteligente é “uma cidade inovadora que utiliza tecnologias de informação e comunicação para melhorar a qualidade de vida, a eficiência dos serviços urbanos e a competitividade, garantindo que atenda às necessidades das gerações presentes e futuras”.
Um conceito que ganhou força a partir de desafios urbanos reais, cada vez mais complexos, como os congestionamentos nas grandes cidades, os impactos das mudanças climáticas, a crescente pressão sobre os serviços públicos e o avanço acelerado do crescimento populacional, por exemplo, que exigem soluções mais inteligentes, sustentáveis e integradas para garantir qualidade de vida à população.
O cenário brasileiro: avanços e desigualdades
O Brasil já apresenta iniciativas relevantes, mas ainda enfrenta forte desigualdade entre cidades. O ranking Connected Smart Cities, uma das principais referências nacionais, mostra que municípios como Vitória, Curitiba, Niterói, Florianópolis e São Paulo lideram indicadores de mobilidade, governança e inovação.
De acordo com levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mais de 1.800 cidades brasileiras já utilizam algum tipo de solução digital na gestão pública, especialmente em áreas como saúde, educação e mobilidade. Ainda assim, o país enfrenta um desafio estrutural: “a implementação de uma governança eficaz é essencial para que as cidades se tornem ‘inteligentes’, considerando a complexidade dos desafios urbanos e o envolvimento de diversos stakeholders. A governança urbana inteligente, habilitada por Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), promove uma colaboração estreita entre cidadãos e governos locais.”, aponta estudo da FGV.
5G: o motor invisível das cidades inteligentes

Se existe um elemento responsável por acelerar esse processo, ele atende por um nome: 5G. Trata-se da tecnologia que permite a conexão massiva de dispositivos, a comunicação em tempo real e baixa latência (resposta quase instantânea).
Segundo a GSMA, as operadoras devem investir em infraestrutura de redes móveis entre 2025 e 2030, com foco principalmente na expansão do 5G, o que pode injetar pelo menos US$ 1,2 trilhão na economia, impactando diversos setores urbanos. Na prática, isso viabiliza soluções como: semáforos inteligentes que se adaptam ao trânsito, veículos cada vez mais conectados, monitoramento urbano em tempo real, gestão eficiente de energia e iluminação, entre outras ações.
Para Mats Granryd, ex-diretor da GSMA, “o 5G não é apenas uma evolução da conectividade móvel, mas sim uma plataforma para inovação em larga escala que vai transformar indústrias e cidades”. Algumas cidades já demonstram, na prática, como esse conceito pode sair do papel.
Curitiba: laboratório urbano brasileiro

A cidade combina tradição em planejamento urbano com iniciativas de inovação como os recentes testes com conectividade 5G broadcast, a integração de dados de mobilidade e projetos de cidade digital.
Florianópolis: inovação guiada por tecnologia

A capital catarinense se destaca pela integração entre o ecossistema de startups, as soluções digitais públicas e alto nível de governança tecnológica.
Niterói: planejamento estratégico, tecnologia e gestão baseada em dados

A cidade localizada no estado do Rio de Janeiro investe em iniciativas como o monitoramento urbano integrado (CISP), a digitalização de serviços públicos e em projetos de mobilidade e urbanismo. Segundo a prefeitura, o diferencial está na integração entre tecnologia e políticas públicas, o que garantiu resultados consistentes para a cidade.
São Paulo: escala e complexidade

São Paulo, por sua vez, enfrenta os desafios da maior cidade brasileira em população. Entre eles, implementar soluções em larga escala, com foco em mobilidade urbana, digitalização de serviços e o uso de dados para gestão.
Vitória: liderança nacional em cidades inteligentes

A capital capixaba vem se consolidando como um dos exemplos mais consistentes de smart city no país. Vitória ocupa o topo do ranking Connected Smart Cities, resultado de uma estratégia que combina gestão orientada por dados, digitalização de serviços públicos e foco na qualidade de vida urbana. Na prática, a cidade avançou na integração de sistemas e no uso inteligente da informação. Entre os destaques estão:
- Centro Integrado de Operações, que reúne dados de mobilidade, segurança e serviços urbanos em tempo real.
- Monitoramento por câmeras e análise de dados, apoiando decisões rápidas na gestão pública.
- Digitalização de serviços ao cidadão, reduzindo burocracia e ampliando o acesso.
- Iniciativas em mobilidade urbana, com uso de tecnologia para melhorar fluxo e planejamento.
Ações que, segundo o prefeito da cidade, Lorenzo Pazolini, colocaram Vitória em um patamar diferenciado não apenas pela adoção de tecnologia, mas pela capacidade de transformar dados em políticas públicas eficientes.
“O ótimo resultado alcançado por Vitória reforça a cidade como um centro de inovação e abre oportunidades para novas parcerias. A troca de conhecimento consolida o compromisso da gestão com a busca contínua por melhorias para a população. Esse resultado comprova que as medidas que têm sido aplicadas tornam a nossa capital ainda mais conectada e sustentável”, destacou Pazolini.
De acordo com a Prefeitura, no eixo “telecomunicação”, Vitória atingiu 100% de cobertura da rede 5G, registrou mais de 133 mil acessos à telefonia móvel e mais de 39 mil acessos à internet por 100 mil habitantes.
Desafios que desaceleram o avanço
Apesar dos avanços das smart cities no Brasil, especialistas da área ainda sugerem que é preciso superar barreiras importantes como a privacidade e o uso de dados, financiamentos e a integração entre sistemas.
- Privacidade e uso de dados: com o avanço da digitalização, cresce a preocupação com a Lei Geral de Proteção de Dados. Dessa forma, segundo a LGPD, “o uso de dados pessoais pelo poder público deve respeitar princípios de finalidade, necessidade e transparência”.
- Financiamento: projetos de smart cities exigem investimentos robustos e de longo prazo, o que nem sempre é viável para municípios menores. O BNDES tem atuado como um dos principais financiadores dessas iniciativas no Brasil.
- Integração entre sistemas: outro desafio é evitar o chamado “efeito silo”, que são sistemas que não conversam entre si, soluções isoladas e baixa interoperabilidade.
O avanço das cidades inteligentes também depende de regulação. No Brasil, o PL 976/2021 busca estabelecer diretrizes para o desenvolvimento do setor, incluindo: planejamento urbano digital, uso estratégico de dados e a integração com planos diretores.
Segundo a McKinsey, à medida que as cidades se tornam mais inteligentes, elas se tornam mais habitáveis e mais responsivas. “Os avanços em sensores, infraestrutura de dados e IA estão permitindo que as cidades gerenciem sistemas complexos como transporte, energia, água, saúde e licenciamento, e não como burocracias lentas, mas como sistemas em operação contínua. Na prática, partes da cidade estão começando a se comportar como plataformas computacionais: observando as condições em tempo real, tomando decisões automaticamente e ajustando as operações sem esperar pela intervenção humana”.
Smart City Expo Curitiba
O avanço das cidades inteligentes no Brasil também passa por iniciativas que conectam governos, empresas e especialistas. É o caso do Smart City Expo Curitiba, que se consolidou como um dos principais encontros sobre inovação urbana na América Latina.
Desde 2018, Curitiba é cidade-sede do Smart City Expo, edição brasileira de um dos principais eventos globais sobre cidades inteligentes, realizado anualmente em Barcelona, na Espanha.
O evento reúne especialistas nacionais e internacionais, prefeituras do Brasil, gestores públicos, empresas e instituições de referência, por isso, Curitiba é considerada a capital das cidades inteligentes das Américas e uma das mais importantes plataformas de debate e inovação urbana do Brasil.
Segundo a organização do evento, o desenvolvimento urbano inteligente depende de uma abordagem integrada, baseada em governança, tecnologia e colaboração entre diferentes atores. Entre os principais temas debatidos estão mobilidade urbana, transformação digital, sustentabilidade e uso estratégico de dados.
Outro destaque do Smart City Expo é o papel da tecnologia como ferramenta e não como fim. Soluções como inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT) e análise de dados são apontadas como essenciais para melhorar serviços públicos e a eficiência da gestão urbana, além da cobertura 5G. A edição deste ano acontece entre os dias 25 e 27 de março, em Curitiba, e apresenta novos termos na pauta, como digital twins (réplicas digitais das cidades), inteligência artificial na gestão urbana e mobilidade como serviço (MaaS).
