Em ambientes dominados por incerteza estrutural, interdependência e contradições, adaptar-se deixa de ser opcional. No podcast Próximo Nível, o cientista-chefe da TDS.company e professor da UFPE e FGV, Sílvio Meira, descreve, de forma realista e pragmática, os fatores relacionados à perplexidade e às resistências das pessoas que experimentam de diferentes formas as transformações.
“Ao contrário do que muita gente pensa, os humanos não querem ser desafiados o tempo todo. É muito pequena a parcela que se desafia a continuar aprendendo o tempo todo; que fica sempre preocupado com o fim de alguma coisa e o começo de uma outra”, constata o cientista. “Normalmente, o que dizem ‘isso aqui vai acontecer e vai mudar tudo’ são classificados como apocalípticos pela maioria das outras pessoas, que não querem que aquela coisa mude. Quem aprendeu a gerir empresas, e entende tudo de planilha, KPIs, dashboards e OKRs e todo o repertório que a gente hoje nas organizações, pode ter muitas de suas funções feitas pelas IAs de hoje. Isso muda o que significa pensar, o que significa escrever, o que significa sistematizar, o que significa entender, criar e decidir. E obviamente, as pessoas não querem ver”, observa Meira.
Entre os mecanismos de resistência, as transformações profundas tendem a ser interpretadas como falta de planejamento. O professor avalia que essa reação seja previsível. Pessoas constroem identidade profissional, rotinas e sensação de controle a partir de modelos conhecidos. Quando esses modelos entram em colapso, o impulso natural é preservar o que ainda parece estável.
Meira aponta que, em sistemas altamente interdependentes, essa dificuldade de compreender impactos amplia o comportamento defensivo. “A gente tem que aprender a viver no mundo de interconexões, de interdependência e de contradições”, afirma. Resistir, nesse contexto, não significa rejeitar a tecnologia, mas tentar ganhar tempo diante de um ambiente que parece mudar rápido demais.
Lideranças entre controle e aprendizado

Se a resistência é parte da equação, o papel das lideranças deixa de ser o de eliminar a incerteza e passa a ser o de criar condições para atravessá-la. Em vez de respostas definitivas, líderes precisam sustentar processos de aprendizado contínuo, experimentação e diálogo.
Esse deslocamento implica abrir espaço para caminhos paralelos, aceitar contradições temporárias e legitimar o erro como parte do processo. Liderar, nesse cenário, é menos conduzir por certezas e mais organizar a convivência com o desconhecido.
A avaliação do acadêmico e consultor converge com a experiência em organizações que lidam há anos com processos mais radicais de transformação. Para o diretor de inovação da Claro empresas, Rodrigo Duclos, a incerteza associada aos cisnes vermelhos torna os limites da previsão ainda mais evidentes. Segundo ele, a experiência acumulada pela companhia mostrou que movimentos como a transformação digital, e a inteligência artificial, são fundamentalmente dependentes das pessoas. “O que aprendemos é que essa transformação é, antes de tudo, dependente dos talentos, do jeito que esses interagem e colaboram entre si, e de como a liderança da empresa se estrutura e se comporta em relação a essas pessoas”, conta. “A tecnologia, nesse cenário, funciona como meio, não como motor isolado”, acrescenta.
Essa centralidade na criatividade e nas escolhas feitas pelas pessoas como fatores determinantes na capacidade de adaptação a novos cenários contrasta com as perspectivas apocalípticas de substituição em massa de profissionais pela IA. E essa avaliação ponderada tem base em fatos. Uma pesquisa recente da Gartner indica que apenas 20% dos líderes de atendimento ao cliente reduziram efetivamente seus quadros por conta da tecnologia. A maioria manteve equipes estáveis, mesmo atendendo volumes maiores de clientes, usando a IA como ferramenta de eficiência.
O estudo também mostra que 42% das organizações estão contratando novos perfis especializados, como estrategistas de IA e analistas de automação. O próprio Gartner projeta que, até 2027, metade das empresas que hoje preveem grandes cortes deve abandonar esses planos.
Vetores inusitados da transformação
A diversidade de caminhos e curvas de adoção de novas tecnologias e hábitos foi ilustrada no podcast por uma história pessoal do apresentador, o jornalista Luiz Pacete. Durante muito tempo, para sua mãe, internet era praticamente sinônimo de WhatsApp. Interessado na compra de um presente para si mesmo, o neto, de 6 anos, a ensinou a usar o TikTok Shop. “Ela se digitalizou pelo WhatsApp durante a pandemia por uma questão de sobrevivência. Hoje, a minha mãe de 75 anos, que por mais de 50 anos era uma cliente fiel de uma rede varejista, com o seu carnê, indo à loja, está no e-commerce. Ela foi introduzida ao TikTok Shopping pelo meu sobrinho de 6 anos”, conta o jornalista. “É ou não é um cisne vermelho?”, indaga.
Nesse caso, a virada ocorreu por um motivo eventual. Entrar no e-commerce, não foi uma decisão estratégica nem um interesse por inovação, mas uma resposta prática a um contexto pessoal. A tecnologia passou a fazer sentido quando se conectou à vida real.
