A inovação nas cidades inteligentes avança no Brasil em ritmo acelerado, impulsionada por dados, conectividade e novas tecnologias. Mas esse movimento ainda não alcança a todos. Enquanto governos e empresas investem em soluções cada vez mais eficientes, parte da população segue à margem dessa transformação, sem acesso pleno a serviços digitais ou às oportunidades geradas por esse novo modelo urbano.
O desafio, cada vez mais evidente, não é apenas inovar, mas garantir que ninguém fique para trás. O cenário atual coloca a eficiência e a escala como guias para a tomada de decisões. Ainda assim, especialistas alertam para um ponto crítico: como avançar na modernização das cidades sem ampliar desigualdades?
Para Humberto Dantas, mestre e doutor em ciências políticas e coordenador de graduação do Instituto de Ensino FIPE, o fator fundamental para a inovação é a inclusão. Segundo ele, os avanços na gestão pública, especialmente aqueles impulsionados por tecnologia e dados, precisam ser pensados dentro de uma “órbita democrática”. Isso significa que indicadores como economia de recursos, agilidade e escala não podem ser os únicos critérios de sucesso. “Nunca podem vir associados à ideia de que eu posso descartar pessoas no meio deste caminho.”, afirma.
Ao adotar soluções digitais ou modelos mais eficientes de gestão, governos tendem a focar no número de cidadãos beneficiados. No entanto, há um outro lado dessa equação que raramente entra no cálculo: os cidadãos que deixam de ser atendidos, seja por falta de acesso, letramento digital ou condições sociais.
Nesse sentido, Dantas defende que gestores públicos ampliem sua capacidade de análise e passem a considerar não apenas o alcance das políticas, mas também suas lacunas.
“Toda vez que eu gero uma inovação, eu não posso apenas calcular quantas pessoas serão atingidas beneficamente, mas também quantas deixarão de ser atendidas”. O professor reforça a necessidade de uma inovação mais responsável e centrada nas pessoas. Em vez de assumir que soluções digitais são universalmente acessíveis, o desafio passa a ser mapear vulnerabilidades, identificar grupos invisibilizados e desenhar políticas públicas que reduzam e não ampliem desigualdades já existentes. “A mensagem é clara: não basta inovar, é preciso incluir”, concluiu Dantas.
Da inclusão à infraestrutura: onde a cidade inteligente começa
Se a inclusão define o limite da inovação nas cidades, é na infraestrutura que essa transformação ganha escala. A digitalização de serviços essenciais, como energia, água e gás, marca a passagem do discurso para a operação. É nesse nível que a cidade inteligente deixa de ser conceito e passa a funcionar no cotidiano.
Nesse contexto, a infraestrutura urbana passa a concentrar os principais avanços práticos da inovação nas cidades. E quando o assunto é inovação urbana, uma das referências do mercado é Eduardo Polidoro, diretor de IoT (Internet das Coisas) e M2M (Machine-to- Machine) da Claro. Durante o Smart City Expo 2026 ele levou uma provocação: a maioria das nossas cidades ainda opera com sistemas “não inteligentes”. A virada de chave para o conceito de Smart City reside, primordialmente, na conectividade de massa.
Segundo Polidoro, um dos maiores gargalos das concessões públicas hoje é a falta de dados em tempo real. Ele exemplifica com o setor elétrico, que recentemente enfrentou crises severas de desabastecimento em capitais como São Paulo. “A maioria das utilidades hoje é ‘não inteligente’. O Smart da cidade inteligente de fato não acontece, muito por falta de conectividade dos equipamentos. Hoje, por incrível que pareça, quando falta energia na nossa casa, a concessionária não sabe, a não ser que a gente ligue e avise”, pontua Polidoro.
A inovação apresentada pela Claro empresas, por exemplo, foca em medidores e religadores conectados. Com o uso de redes celulares de alta penetração, o sistema deixa de ser reativo. Se um galho toca a rede, um religador inteligente pode restabelecer a energia instantaneamente, sem a necessidade de deslocar uma equipe técnica. Além disso, o monitoramento constante permite identificar oscilações que queimam eletrodomésticos, garantindo a qualidade da entrega ao consumidor final.
A inovação também é a principal aliada no combate ao desperdício de recursos escassos. No Brasil, os índices de perda de água tratada são alarmantes, chegando a 70% em algumas regiões. Para Polidoro, a tecnologia de IoT nos hidrômetros é o caminho para a sustentabilidade financeira e ambiental.
“Pagamos conta por média porque o leiturista não chega em muitos lugares. Com medidores conectados, tornamos os recursos disponíveis e facilitamos a detecção de vazamentos quando o consumo sai do padrão. É o uso da tecnologia para a produtividade do dado”, pontuou.
Outro exemplo está no setor de gás, onde a inovação toca em um ponto crítico: a segurança. Religar o fornecimento em um condomínio após um vazamento é uma operação complexa e (até então) manual, que exige conferir unidade por unidade se os registros estão fechados. A solução proposta envolve medidores que permitem ao morador sinalizar, via aplicativo, que sua instalação está segura. “O funcionário da utility não precisa mais bater de porta em porta. É uma solução barata que evita acidentes e agiliza o restabelecimento do serviço”, explica o executivo.
| Setor | Modelo Atual (Desconectado) | Inovação (Smart/Conectado) |
| Energia | Reativo (espera o chamado do cliente) | Proativo (identifica queda e oscilação em tempo real) |
| Água | Leitura mensal manual ou por média | Monitoramento em tempo real e alerta de vazamento |
| Gás | Religamento manual e demorado | Gestão digital por unidade e maior segurança |
| Gestão | Desconhecimento do perfil de uso | Controle via app e consumo consciente |
O próximo passo: controle na palma da mão
Para Eduardo Polidoro, a inovação tecnológica cumpre seu papel social quando impacta o orçamento das famílias e a consciência coletiva. Com o custo crescente das tarifas, ter o controle do consumo em um aplicativo, seja para monitorar o banho dos filhos ou identificar desperdícios ocultos, é o que define uma cidade moderna.
“É impossível que o consumo hoje não esteja sob o nosso controle. A partir do momento que isso está num aplicativo, conseguimos aumentar a eficiência e evitar situações de racionamento. Esse é o primeiro passo de uma cidade inteligente”, considerou o executivo da Claro.
A tecnologia para essa transformação já está disponível e utiliza a infraestrutura celular que já cobre o país. O desafio é a adoção em massa por parte das concessionárias.
Da infraestrutura aos sistemas integrados: a inteligência em operação

Com a base conectada, algumas cidades já operam em um estágio mais avançado, integrando dados, sistemas e decisões em tempo real. São iniciativas que mostram como a inteligência urbana passa a coordenar o funcionamento da cidade como um todo.
Um dos exemplos concretos de como inovação, dados e tecnologia podem transformar a gestão urbana está no Centro de Operações Rio, na cidade do Rio de Janeiro. Criado como legado dos Jogos Olímpicos e consolidado durante o megaevento de 2016, o sistema se tornou uma das referências mais robustas de cidade inteligente na América Latina. O sistema ganhou escala, complexidade e visibilidade global, e passou a funcionar como o verdadeiro “cérebro” da cidade, integrando dezenas de órgãos públicos, concessionárias e forças de segurança em uma única estrutura.
Hoje, o modelo reúne mais de 500 profissionais atuando em turnos 24 horas, 7 dias por semana. Permite a integração de mais de 50 órgãos públicos e parceiros, e realiza o monitoramento contínuo de eventos urbanos, do trânsito ao clima. De acordo com Willington Feitosa, coordenador de Cidades Inteligentes da Prefeitura do Rio de Janeiro, “a lógica é simples, mas poderosa: conectar dados em tempo real para antecipar problemas e acelerar respostas”. Ele conta que, ao todo, a cidade tem disponíveis mais de 5.000 câmeras.
A cidade conta ainda com o uso de sensores e sistemas georreferenciados, um Geoportal com mais de 150 camadas de informação urbana e o monitoramento de trânsito, meteorologia, saúde, mobilidade e eventos. “Essas informações são exibidas em um grande videowall e analisadas em tempo real, permitindo que nossos gestores tomem decisões rápidas diante de crises como chuvas intensas, acidentes ou grandes eventos”, completou.
O especialista ainda conta que o ecossistema de inovação do Rio conta com parceiros globais, o que permite evoluir de uma forma ainda mais rápida.
Impacto nas cidades

Mais do que centros de monitoramento, as centrais de comando de smart cities representam uma mudança de paradigma, uma vez que a gestão urbana passa a ser orientada por dados. Na prática, isso significa respostas mais rápidas a emergências, reduzindo impactos de enchentes e acidentes, por exemplo. A otimização do trânsito, com ajustes dinâmicos de semáforos e rotas, um melhor planejamento urbano, com base em dados históricos e preditivos e a integração entre áreas antes isoladas, como transporte, clima e segurança.
No caso do Rio de Janeiro, a inovação trouxe ainda a expansão recente do sistema. Atualmente a cidade tem capacidade de armazenamento de dados na casa dos petabytes, além da implantação de milhares de pontos de Wi-Fi urbano e a telegestão da iluminação pública, com eficiência energética. Grandes eventos como o carnaval do Rio também contou com o apoio da tecnologia, garantindo mais segurança à população local e aos visitantes.
Os bons exemplos não param por aí. São José dos Campos está implantando um sistema de travessia segura de pedestres. A Ibrax, que faz parte do projeto Sandbox da cidade, desenvolveu um totem que aumenta a sinalização durante a travessia de faixas. O totem, com luzes de LED de alta potência, alerta os motoristas sobre a intenção de travessia. Ele possui um botão por aproximação e uma câmera com inteligência artificial que monitora o fluxo de pedestres e veículos, gerando dados que são utilizados pelo município para otimizar o trânsito.
Outra ferramenta que vem ajudando os municípios em tarefas administrativas e que até então exigiam uma participação humana mais ativa e que agora podem ser feitas com o apoio da tecnologia, já conquistou espaço cativo em mais de 100 municípios do Brasil. A empresa Geopixel oferece soluções para aumentar a arrecadação municipal, especialmente em áreas como IPTU, TBI e ISSQN. Com imagens de satélite e inteligência artificial, a empresa auxilia na identificação de construções irregulares, otimizando processos de aprovação e fiscalização, e monitorando o mercado imobiliário para atualização de valores. Além disso, oferece um aplicativo para a Defesa Civil, integrando dados climáticos e áreas de risco, atendendo municípios de diversos portes, com tecnologias próprias e um laboratório de inovação, focado em resolver problemas reais e gerar valor para as gestões públicas.
