No Brasil, a combinação entre redes 5G e inteligência artificial (IA) redesenha de forma progressiva a operação de pequenas e médias empresas (PMEs), e tende a se consolidar como um fator estrutural de competitividade até o fim da década. Dados recentes mostram que a base tecnológica já está sendo formada e o próximo passo é a integração em escala.
Um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), divulgado pela CNN Brasil, indica que 44% dos pequenos negócios brasileiros já utilizam alguma aplicação de inteligência artificial em suas rotinas, seja para atendimento ao cliente, marketing, automação administrativa ou apoio à tomada de decisão. O dado revela que a IA já entrou no cotidiano das PMEs, ainda que, em muitos casos, de forma pontual.
Ao mesmo tempo, a expansão do 5G cria uma camada adicional de capacidade: maior velocidade, menor latência e conexão simultânea de dispositivos. Segundo análise da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a tecnologia não se limita a melhorar o acesso à internet, mas permite novos modelos de uso intensivo de dados, automação em tempo real e integração entre sistemas físicos e digitais.
De acordo com o estudo apresentado pela UFSC, até 2030, a convergência entre essas duas tecnologias tende a transformar processos, modelos de negócio e cadeias produtivas inteiras, especialmente entre empresas de menor porte, historicamente mais sensíveis a ganhos de eficiência.
5G como infraestrutura para a IA aplicada
O 5G funciona como habilitador. Sem conectividade estável e de baixa latência, aplicações mais avançadas de IA ficam restritas a ambientes controlados. Com o 5G, PMEs passam a ter acesso a:
- Processamento de dados em tempo real, essencial para análise preditiva e automação;
- Integração de sensores e dispositivos IoT, com coleta contínua de informações;
- Uso de IA na borda da rede (edge computing), reduzindo dependência de grandes data centers.
O Sebrae-SC publicou recentemente um artigo voltado a pequenos empresários, que destaca que o 5G viabiliza operações mais digitais em áreas como logística, comércio, serviços e indústria leve, com impactos diretos sobre produtividade e custos operacionais.
Na prática, segundo o Sebrae-SC, isso significa que soluções que hoje exigem infraestrutura complexa tendem a se tornar acessíveis via modelos de serviço, reduzindo barreiras de entrada.
IA deixa de ser tendência e vira requisito operacional
A Startse resume o movimento de forma direta: para as PMEs, a IA deixou de ser tendência e passou a ser questão de sobrevivência. O argumento se apoia na pressão competitiva criada por empresas que já usam automação para ganhar escala, personalizar ofertas e responder mais rapidamente ao mercado.
Em recente publicação, o Valor Econômico, ao analisar dados de mercado, apontou que seis em cada dez pequenas empresas brasileiras já sentem impactos diretos da IA em seus resultados, mesmo quando o uso se concentra em ferramentas simples. Esse dado sugere que o ganho não está apenas em soluções sofisticadas, mas na aplicação consistente da tecnologia ao negócio.
Até 2030, a expectativa é que a IA avance de usos isolados para sistemas integrados, conectando vendas, estoque, logística, finanças e relacionamento com clientes, cenário que o 5G torna tecnicamente viável.
Apesar dos avanços, a transformação não acontece de forma homogênea. Alguns segmentos tendem a sentir os efeitos de forma mais rápida:
- Varejo e e-commerce: uso combinado de IA para previsão de demanda, precificação dinâmica e personalização, com atualização em tempo real via 5G.
- Indústria de pequeno e médio porte: monitoramento de máquinas, manutenção preditiva e controle de qualidade automatizado.
- Serviços e logística: roteirização inteligente, rastreamento contínuo e atendimento automatizado.
- Agronegócio de menor escala: sensores conectados, análise de solo e clima, e automação de processos produtivos.
Segundo a UFSC, trata-se do resultado do impacto social mais amplo do 5G: a capacidade de conectar dados, máquinas e pessoas em tempo real, alterando a lógica de operação de organizações de todos os tamanhos.
Ganhos esperados até o fim da década

Os ganhos esperados até o fim da década apontam para três vetores principais de transformação das PMEs brasileiras até 2030. A automação de tarefas repetitivas e o uso de ferramentas de apoio à decisão tendem a reduzir significativamente os custos operacionais, ao mesmo tempo em que liberam tempo das equipes para atividades mais estratégicas e de maior valor agregado.
Além disso, o acesso a tecnologias antes restritas a grandes empresas amplia a capacidade competitiva das PMEs, que passam a disputar mercados com base em dados, velocidade e eficiência. Paralelamente, modelos baseados em computação em nuvem, IA como serviço e conectividade 5G possibilitam maior escalabilidade dos negócios, permitindo crescimento sem a necessidade de expansão proporcional de equipes ou de ativos físicos.
Desafios ainda presentes
Apesar do avanço, ainda existem obstáculos relevantes. Segundo o Sebrae, mais da metade dos pequenos negócios ainda não utiliza IA. Entre os principais entraves estão:
- Falta de conhecimento técnico;
- Dificuldade de integrar ferramentas ao negócio;
- Incerteza sobre retorno do investimento;
- Desigualdade regional no acesso ao 5G.
A expectativa é que esses fatores definam o ritmo da transformação. Até 2030, políticas públicas, programas de capacitação e iniciativas privadas terão papel crucial para reduzir assimetrias e ampliar o uso efetivo das tecnologias.
O que muda no papel do empreendedor
Com 5G e IA mais disseminados, o papel do gestor de pequenas e médias empresas também muda. A tomada de decisão passa a ser cada vez mais orientada por dados, e a capacidade de interpretar informações se torna um diferencial competitivo.
Como destaca a publicação da Veja, o avanço do 5G no Brasil cria as condições para que a IA deixe de ser uma ferramenta isolada e se torne parte da infraestrutura empresarial, influenciando desde a estratégia até a operação diária.
Um novo padrão competitivo
Até o fim da década, a adoção combinada de 5G + IA tende a estabelecer um novo padrão competitivo no mercado brasileiro. Para as PMEs, é uma questão de adaptação a um ambiente em que conectividade avançada e inteligência de dados passam a definir quem cresce, quem se mantém e quem perde espaço. A tecnologia está disponível e parte do empresariado já adotou. Os resultados começam a aparecer com o tempo. O desafio, no entanto, está na escala, na integração e na estratégia.
