A estrutura tecnológica, as cestas de produtos e a própria relevância para pessoas e negócios tornam a indústria de telecomunicações “irreconhecível” para quem não acompanha o passo a passo de sua reinvenção. Em poucas décadas, as operadoras passaram de redes medidas em Kbps para infraestruturas capazes de sustentar aplicações críticas em escala de Gbps, ampliaram suas ofertas para além da conectividade e redesenharam suas parcerias técnicas e comerciais. Mais do que isso, mudaram a forma de apoiar clientes (empresas, governos e consumidores) na resposta a desafios conjunturais, que vão de crises geopolíticas à digitalização acelerada.
É nesse contexto que o relatório Top 10 Risks in Telecommunications for 2026, da EY, pode ser lido menos como um inventário de ameaças e mais como um mapa da agenda de transformação das operadoras para 2026. Riscos interconectados, tecnologia, talentos e novos modelos de negócio desenham uma agenda de autoquestionamento, observação contínua e readaptação estratégica.
Lidos em conjunto, os riscos mapeados pela EY sinalizam menos um cenário de retração e mais uma agenda de transformação contínua. Para 2026, a operadora que prospera é aquela capaz de se autoquestionar, observar mudanças sistêmicas e se readaptar rapidamente, conectando tecnologia, talentos, parcerias e proximidade com o cliente para sustentar relevância em um setor que deixou de ser apenas infraestrutura e passou a ser plataforma estratégica da economia digital.
Riscos como motor de transformação
Segundo a EY, os riscos hoje são voláteis e capazes de gerar pontos de ruptura súbitos, exigindo das operadoras uma postura ativa de reinvenção. Essa leitura reforça a ideia de que a agenda de 2026 não é apenas defensiva, mas também estratégica, orientada à criação de valor.
1. Privacidade, segurança e confiança como base do negócio
O principal risco apontado pela EY permanece o mesmo: subestimar as mudanças nas exigências de privacidade, segurança e confiança. Em um ambiente de adoção acelerada de IA e maior exposição cibernética, o relatório observa que apenas 59% das operadoras afirmam ter metodologias robustas para gerenciar riscos associados à IA. Para 2026, o reposicionamento passa por incorporar confiança digital como atributo central das ofertas, e não apenas como requisito regulatório.
2. Transformação tecnológica e o peso do legado
A transformação por meio de novas tecnologias aparece como o segundo maior risco. A EY alerta para a pressão crescente de descomissionar redes e sistemas legados, ao mesmo tempo em que se escala o uso de IA e cloud. Na prática, há casos em que a rede legada engessa a atualização de serviços já consagrados, limitando inovação e agilidade. O relatório ressalta que mais da metade das operadoras considera essencial substituir OSS/BSS tradicionais por sistemas digitais, embora o ritmo dessa transição varie amplamente.
3. Talentos, cultura e competências multidisciplinares

A escassez de talentos segue como risco estrutural. Segundo a EY, as maiores demandas estão em cibersegurança, IA, infraestrutura de TI e ciência de dados. Operadoras que mantêm liderança e crescimento continuam a investir fortemente em times de engenharia, mas também em competências multidisciplinares, combinando tecnologia, negócios e entendimento setorial. A transformação cultural, porém, ainda enfrenta resistência em organizações historicamente hierárquicas.
4. Proposta de valor e desempenho de rede
A inadequação da proposta de valor da rede reflete um desafio clássico com novas nuances. Mesmo onde há ampla disponibilidade de fibra ou 5G, a adoção nem sempre acompanha o investimento. A EY aponta que diferenciar-se apenas por preço é insuficiente e que experiências, comunicação e confiabilidade ganham peso. Direcionar os investimentos a ofertas de valor para os clientes exige cada vez mais aprofundamento, especialização e proximidade com as demandas reais de uso.
5. Geopolítica, fiscalidade e soberania digital

A adaptação insuficiente ao ambiente geopolítico é um dos riscos que mais subiram no ranking. Governos com problemas fiscais ampliam incertezas tributárias, enquanto turbulências geopolíticas tumultuam decisões de investimento. Ao mesmo tempo, o relatório destaca oportunidades ligadas a agendas de soberania tecnológica, como nuvens e infraestruturas de IA nacionais, nas quais as operadoras podem assumir papel central.
6. Novos modelos de negócio e monetização
A incapacidade de capturar novos modelos de negócio reflete, em parte, um déficit de comunicação de valor. A EY observa que “24% das empresas de todos os setores têm pouco ou nenhum conhecimento das soluções de API de rede”, percentual que sobe para 30% na indústria de transformação. Comunicar claramente o valor que redes inteligentes e programáveis podem gerar torna-se parte essencial da agenda de transformação.
No Brasil, as operadoras foram pioneiras no desenvolvimento de serviços sobre Open Gateway. Junto a alianças com setores de maior maturidade digital, como as parcerias com a indústria financeira, também fomentam ecossistemas de desenvolvedores, para aplicações que aproveitem a exposição de funções das redes inteligentes.
7. Ecossistemas, alianças e “coopetição”
O engajamento ineficaz com ecossistemas externos surge como risco relevante em um setor cada vez mais colaborativo. A EY destaca a expansão de parcerias horizontais e verticais, muitas vezes marcadas pela “coopetição”, em que grandes players de tecnologia atuam simultaneamente como parceiros e concorrentes. A capacidade de articular alianças globais e locais torna-se, assim, um diferencial estratégico.
8. Clientes mais exigentes e sofisticados

Falhar em responder às mudanças nas necessidades dos clientes fecha a lista dos riscos centrais. Consumidores e empresas demonstram maior preocupação com segurança digital, clareza de ofertas e impacto social da conectividade. O relatório mostra que até usuários jovens, considerados “nativos digitais”, enfrentam dificuldades para compreender e instalar serviços. O cliente de 2026 tem critérios mais sofisticados e expectativas mais altas, exigindo das operadoras soluções mais objetivas, transparentes e personalizadas.
9. Sustentabilidade: entre avanço técnico e incerteza estratégica
A EY aponta que a má gestão da agenda de sustentabilidade segue como risco relevante para 2026. Embora indicadores operacionais mostrem avanços, como a redução de emissões e da intensidade energética das redes, o relatório observa uma perda de tração nos compromissos de longo prazo. Os dados revelam que 60% dos líderes de telecomunicações estão revendo os prazos de suas metas de sustentabilidade. A agenda de transformação exige integrar ESG ao modelo de negócio, conectando eficiência de rede, circularidade e valor para clientes e sociedade, e não tratá-la como iniciativa paralela.
10. Modelos operacionais pressionados por escala e complexidade
O décimo risco destacado pela EY é a inadequação dos modelos operacionais para maximizar a criação de valor. A consolidação, a centralização de funções e o aumento de joint ventures ampliam a complexidade das operações. Segundo o estudo, 77% dos CEOs do setor pretendem realizar fusões e aquisições como vetor de crescimento, mas isso exige estruturas mais flexíveis e integradas. Para 2026, a transformação passa por redesenhar modelos operacionais capazes de sustentar especialização, múltiplos parceiros e velocidade de decisão, sem perder coerência estratégica.
