Febraban Tech 2026 Febraban Tech 2026
Painel de evento com seis participantes sentados em palco, sob telão com arte tecnológica em rosa, incluindo Cristiano Adjuto, Leandro Ferreira Granja, Ciro Menezes Barreiros, Adriano Volpini, Marcelo Henrique e Mona Dorf. Da esquerda para a direita: Cristiano Adjuto, Leandro Ferreira Granja, Ciro Menezes Barreiros, Adriano Volpini, Marcelo Henrique e Mona Dorf (Foto: Nai Fachini)

Na guerra entre IAs, bancos ampliam detecção e resposta a ataques em tempo real 

5 minutos de leitura

Executivos de cinco dos maiores bancos do país mostraram como a IA já é usada para detectar riscos e responder a ataques, mas destacaram limites de autonomia e a necessidade de governança e supervisão humana



Por Nai Fachini em 26/08/2026

A inteligência artificial já faz parte da linha de defesa dos bancos. A tecnologia é usada para identificar padrões, correlacionar eventos, detectar comportamentos suspeitos e acelerar respostas a incidentes. Mas, à medida que os sistemas se tornam mais autônomos, surge um novo desafio: a mesma IA utilizada para proteger instituições financeiras também pode ser empregada por criminosos para realizar ataques.

Essa foi uma das principais discussões do painel “IA na linha de defesa: do monitoramento ao combate em tempo real”, realizado nesta terça-feira (25), no Febraban Tech 2026, em São Paulo. O debate reuniu Adriano Volpini, do Itaú Unibanco; Ciro Menezes Barreiros, da Caixa; Cristiano Adjuto, do Bradesco; Leandro Ferreira Granja, do Santander Brasil; e Marcelo Henrique, do Banco do Brasil, com moderação de Mona Dorf, da Febraban. A programação do evento colocou o painel dentro da trilha “A guerra invisível da cibersegurança”.

Painel de evento corporativo com palco e telões exibindo o nome dos participantes Cristiano Adjuto, Leandro Ferreira Granja, Ciro Menezes Barreiros, Adriano Volpini, Marcelo Henrique e Mona Dorf.
Da esquerda para a direita: Cristiano Adjuto, Leandro Ferreira Granja, Ciro Menezes Barreiros, Adriano Volpini, Marcelo Henrique e Mona Dorf (Foto: Nai Fachini)

A discussão mostrou que o setor financeiro está avançando de uma lógica baseada apenas no monitoramento para modelos capazes de interpretar sinais, antecipar riscos e responder com velocidade. Ao mesmo tempo, os executivos destacaram que autonomia não significa ausência de controle humano.

Detectar para agir

No Itaú, a IA já é aplicada em diferentes pontos da estratégia de segurança e prevenção a crimes financeiros. Um dos movimentos destacados no painel é justamente a capacidade de analisar ataques e responder em tempo real. A evolução, porém, ainda ocorre com supervisão humana. Em situações de incidentes de segurança, a decisão não é simplesmente entregue ao algoritmo. A expectativa apresentada no debate é que, com o amadurecimento dos modelos, parte dessas etapas possa ganhar maior autonomia.

A velocidade é um dos principais ganhos. Em vez de analisar isoladamente uma ocorrência, os modelos podem cruzar diferentes sinais e identificar padrões que indicam uma possível fraude ou ataque.

No Santander, essa capacidade de correlacionar eventos foi apresentada como um dos caminhos para chegar a sinais mais precisos de fraude.A tecnologia amplia a capacidade de análise, mas a instituição ainda busca alcançar o nível de confiança necessário para automatizar decisões. A questão é especialmente relevante quando uma decisão equivocada pode bloquear uma operação legítima ou afetar diretamente a experiência do cliente.

A evolução dos mecanismos de defesa acontece em paralelo ao avanço das ferramentas utilizadas pelos atacantes. Leandro Granja, CISO do Santander Brasil, resumiu a lógica do cenário ao defender que a capacidade de combate precisa acompanhar a sofisticação dos ataques: a IA que defende também pode atacar.

Nesse ambiente, uma das estratégias passa por utilizar a própria inteligência artificial para testar e desafiar modelos existentes. A ideia é identificar vulnerabilidades antes que elas sejam exploradas externamente.

Esse movimento amplia o conceito de segurança. Não basta proteger aplicações, redes e dados. É preciso monitorar também os próprios modelos de IA, seus agentes, acessos e comportamentos. Nesse cenário, as instituições precisam definir quem controla os agentes de IA, quais informações eles podem acessar, que ações podem executar de forma autônoma e como identificar comportamentos fora do esperado. 

Nova camada de proteção

Para o Bradesco, a evolução da IA cria uma nova camada que precisa ser incorporada à arquitetura de segurança. A instituição trabalha com o princípio de que modelos e sistemas de inteligência artificial precisam receber proteção semelhante à aplicada a outros ativos críticos. Isso inclui controle de acessos e monitoramento das ações realizadas pelos sistemas.

O desafio também envolve ataques aos próprios modelos, incluindo o uso de dados manipulados ou falsos para comprometer seu funcionamento. Se antes a prioridade era proteger os sistemas, agora é necessário proteger também a camada de inteligência que passa a operar sobre eles.

Outro ponto comum ao debate foi o equilíbrio entre segurança e experiência do cliente.

Na Caixa, a escala é um desafio adicional. Como banco público, a instituição atende públicos com diferentes perfis e necessidades, o que exige modelos capazes de atuar em grande volume sem criar uma jornada excessivamente complexa.

A IA pode contribuir para identificar riscos e tornar os processos mais eficientes, mas precisa manter a operação compreensível para o cliente. 

O Banco do Brasil trouxe preocupação semelhante. Investimentos em proteção dos canais precisam ser acompanhados por uma arquitetura capaz de preservar a experiência do usuário. Uma camada de segurança mal desenhada pode gerar atrito, impedir operações legítimas e, consequentemente, prejudicar o próprio negócio.

Por isso, a tecnologia precisa ser combinada com contexto de negócio. O objetivo não é simplesmente detectar o maior número possível de comportamentos suspeitos, mas distinguir situações de risco de operações legítimas.

Autonomia com governança

A expansão da autonomia dos sistemas de IA também trouxe uma preocupação recorrente no painel: até onde deixar uma máquina decidir?

Para a Caixa, processos mais críticos exigem limites de autonomia proporcionais ao risco. Quanto maior a criticidade da operação, maior deve ser o nível de governança e controle.

O debate também apontou que colocar IA sobre processos antigos, complexos e volumosos não significa que todos os problemas serão automaticamente resolvidos. Em ambientes bancários, modelos precisam conviver com sistemas legados e processos críticos.

No Banco do Brasil, a governança apareceu como elemento necessário tanto para a implantação quanto para o período posterior. Modelos precisam ser constantemente testados, monitorados e controlados.

A preocupação se estende à auditabilidade. “Em um ambiente no qual decisões passam a ser tomadas ou influenciadas por algoritmos, é necessário conseguir entender o funcionamento do modelo e reconstruir o caminho percorrido quando algo dá errado”, explicou Marcelo Henrique, do Banco do Brasil.

Explicabilidade entra na linha de defesa

A confiança nos modelos foi apontada como uma das condições para ampliar a autonomia da IA.

No Santander, um dos desafios está justamente em demonstrar que determinado modelo continuará adequado ao longo do tempo. “Isso exige acompanhar variáveis, avaliar resultados e estabelecer mecanismos de governança”, justificou Leandro Ferreira Granja, do Santander Brasil.

Segundo o especialista, a explicabilidade ganha ainda mais importância nesse processo. “Se uma decisão automatizada produzir um resultado inadequado, o banco precisa conseguir identificar o que aconteceu, corrigir o problema e, quando necessário, ajustar o modelo”, completou.

A segurança envolve também governança, processos, pessoas e responsabilidade sobre as decisões automatizadas. Mas, a transformação não acontece apenas nos sistemas. Os executivos destacaram a necessidade de formar profissionais mais híbridos, capazes de combinar conhecimentos de tecnologia, segurança, negócio e inteligência artificial. O treinamento contínuo das equipes passa a ser parte da própria estratégia de defesa.

A Caixa também apontou o letramento digital como componente importante, enquanto o debate reforçou que upskilling (o desenvolvimento contínuo de novas competências) será permanente em áreas de tecnologia e segurança.

No fim, a discussão do Febraban Tech mostrou que a corrida não terá um ponto final. Os modelos de defesa evoluem, os ataques evoluem e os mecanismos de proteção precisam evoluir novamente. A IA pode acelerar esse ciclo e permitir que os bancos identifiquem ameaças em uma velocidade que seria difícil alcançar apenas com equipes humanas. Mas o avanço da tecnologia traz uma exigência adicional: quanto mais autonomia os sistemas ganham, maior precisa ser a capacidade de governá-los. 

Segundo os especialistas, a cibersegurança entrou em uma nova fase. Não se trata apenas de usar IA para proteger o sistema financeiro, mas de garantir que a própria inteligência artificial seja segura, monitorável, explicável e confiável.



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