DTV+ inclusiva com satélite e 5G broadcast Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025

DTV+ mais versátil e inclusiva com satélite e 5G broadcast

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Emissoras, indústria e operadoras discutem avanços e desafios para que o conteúdo, as funcionalidades e a experiência da TV 3.0 permeiem todos os meios de acesso.



Por Vanderlei Campos em 28/08/2025

A próxima geração da TV digital no Brasil caminha para ser mais ampla e inclusiva, combinando transmissões terrestres, por satélite e redes móveis. Nos debates realizados durante o SET Expo 2025, especialistas do Fórum Brasileiro de TV Digital (SBTVD) defenderam a interoperabilidade entre padrões e a entrega de uma experiência unificada ao telespectador. O modelo prevê avanços no TVRO (TV receive only ou recepção por satélite), que já chega a milhões de lares, a adoção do 5G broadcast para consumo móvel e a evolução de receptores híbridos (com conexões a broadcast e Internet), cuja adoção depende do engajamento da indústria de dispositivos.

DTV+ inclusiva com satélite e 5G broadcast
Ana Eliza Faria e Silva (Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025)

“Pensamos o DTV+ sob a ótica de unificação da experiência, num momento em que broadcast e broadband se encontram e ampliam a personalização do consumo”, definiu Ana Eliza Faria e Silva, gerente sênior de regulação de tecnologia da Globo, mediadora de um dos principais painéis sobre o tema.

Guilherme Saraiva, diretor comercial para mídia e satélite da Claro empresas, ressaltou que a premissa do DTV+ via satélite é entregar a mesma experiência da TV 3.0 terrestre, estendida para diferentes meios de distribuição.

“A geração deve atender a todos os canais. O consumo é diferenciado, mas o produto é único. O ideal é que a tecnologia permeie toda a cadeia, levando o mesmo sinal para TVRO, 5G broadcast e TV 3.0 terrestre”, disse.

Hipersegmentação e acréscimos de funcionalidades na transição à TV 3.0

Hoje, cerca de 13,6 milhões de lares recebem TVRO dos satélites da Claro empresas, entre os quais 6 milhões apenas no Nordeste. Desse total, aproximadamente 5 milhões ainda acessam a programação pela banda C, com receptores subsidiados pelo programa Seja Digital.

Um dos avanços já consolidados é a facilidade de hipersegmentação, com uma distribuição mais granular do sinal de satélite. “Na Globo, por exemplo, a Bahia foi dividida em seis sub-regiões”, exemplificou Saraiva.

Guilherme Saraiva (Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025)

Saraiva explicou que o próximo passo será a introdução do TVRO 2.5, uma etapa intermediária rumo à TV 3.0 por satélite. Essa versão acrescenta funções que antes eram exclusivas da radiodifusão terrestre, como imagem em 4K, medição de audiência e DAI (inserção dinâmica de anúncios).

Além disso, os novos receptores terão suporte a aplicativos em Linux ou Android, abrindo espaço para interatividade. Hoje, receptores básicos (zappers) custam entre R$ 200 e R$ 250, mas os modelos híbridos, na faixa de R$ 400 a R$ 500, podem habilitar essa nova camada de serviços. Evidentemente, os players de radiodifusão e telecomunicações esperam preços mais acessíveis, conforme melhorias de eficiência e escala por parte dos fabricantes. 

A Claro empresas firmou acordo com as fabricantes Bedin Sat, Century e Vivensis para lançar o TVRO 2.5 em 2026. “Essa geração prepara a base para a futura TV 3.0 por satélite, mas já entrega valor imediato com melhor qualidade e novos serviços”, esclareceu o executivo.

Do transporte aos serviços gerenciados

Com a diversidade e sofisticação dos produtos de broadcast via satélite, o Teleporto e Centro de Operações de Guaratiba (RJ) lida hoje com um amplo portfólio de interconexão de afiliadas, agregação de conteúdo para provedores e acesso para o consumidor final. Só o SAT HD Regional já chegou a 40 mil ativações diárias, uma escala que exige processos automatizados. “O contact center se conecta à nuvem do Teleporto, que habilita imediatamente o receptor”, mencionou Saraiva.

“O Centro de Operações deixou de apenas entregar MHz e medir portadoras. Hoje é um centro de mídia e serviços gerenciados”, definiu o diretor da Claro empresas.

Atualmente, os clientes chegam ao Teleporto por meio de mais de 400 conexões.

5G com TV aberta – a integração natural de broadcast e Internet

Thiago Nakagawa, líder de transmissão e mídia da Rohde & Schwarz, esclareceu duas abordagens bem distintas para recepção de TV aberta em celulares 5G. Com o padrão MBMS (Multimedia Broadcast Multicast Services), do 3GPP, a própria rede 5G é habilitada para radiodifusão, com sinais de frequência única (SFN) ao longo de todas as células da área de cobertura. Outra abordagem seria embarcar receptores ATSC (Advanced Television Systems Committee, o padrão da TV 3.0 no Brasil).

Thiago Nakagawa (Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025)

“O público que já não tem mais aquele tempo de ficar sentado em frente à TV passa a ser atendido. Com o 5G broadcast, alcançamos as pessoas em trânsito, no trabalho ou aguardando algum compromisso”, disse Nakagawa.

Junto a um canal mais eficiente e com alta qualidade, a integração de broadcast com o 5G abre espaço para criação de serviços baseados em geolocalização e outras peculiaridades do canal. “O celular é um dispositivo único e pessoal, sempre com o usuário, e isso abre muito potencial para personalização”, argumentou.

Desafios técnicos

Já há experiências em campo, como no torneio de tênis Rio Open, transmitido em 5G broadcast, e em eventos esportivos que reúnem público concentrado. A tecnologia mostra vantagem em situações em que milhares de pessoas querem acessar o mesmo conteúdo em tempo real, sem sobrecarregar a rede.

Mas há entraves. Entre eles, a definição de faixas de frequência e o uso de uma faixa de sobra (duplex gap) existente dentro do espectro de 600 MHz. Outro ponto é a evolução dos modems. Nakagawa mencionou que celulares com chipsets da Qualcomm já podem ser ajustados por software para receber o 5G broadcast, mas deixam de se comunicar com a rede de dados. “O desafio é que novas gerações de modems consigam fazer as duas funções ao mesmo tempo”, explicou.

Ele acrescentou que a adesão das operadoras deve ser gradual e voltada a aplicações pontuais, como transmissões esportivas ou grandes eventos. “Esse tipo de aplicação mostra que o broadcast pode complementar a rede móvel tradicional em situações de alta demanda localizada”, afirmou.

Receptores terrestres também evoluem

Além do satélite e do celular, o avanço da transmissão terrestre também depende da indústria de equipamentos. Em outro painel da SET Expo, sobre engenharia de transmissão e recepção, Wender Almeida de Souza, assessor técnico de engenharia da Abratel (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), ressaltou a necessidade de receptores que funcionem com antenas internas. “Até agora, os testes foram feitos com antenas externas. Para o consumidor, tudo tem que ser mais fácil”, afirmou. “O ideal é que se consiga embutir a antena no próprio dispositivo”, antecipou.

Yvan Freire, CEO do Grupo Vivensis, contou que a empresa está desenvolvendo uma antena MIMO de 20 cm x 20 cm, com chip da Sony, para recepção da TV 3.0. A produção em escala está prevista para 2026. “Pode não ser um produto popular no início, mas é um passo para viabilizar o mercado de receptores domésticos com melhor desempenho”, disse o painelista.

Radiodifusão e telecomunicações esperando inovações da indústria

Embora o Fórum SBTVD avance nas definições de padrões e arquiteturas de rede, especialistas alertaram que muitas das funcionalidades dependem do desenvolvimento dos fabricantes de receptores e celulares.

“Não se trata de desenvolver um sistema novo para o celular, mas de usar o que já está disponível nos dispositivos”, observou Ana Eliza. Segundo ela, a escala global da indústria móvel exige que o Brasil se insira no movimento internacional para garantir que os aparelhos sejam compatíveis com as soluções em discussão.

O desafio, portanto, não é apenas tecnológico, mas também de mercado: ajustar preços de receptores, convencer fabricantes a adotar recursos híbridos e alinhar padrões internacionais para que a experiência prometida pelo DTV+ chegue a todos os públicos.

Os debates sobre a convergência entre satélite, 5G broadcast e TV 3.0 terrestre dominaram diferentes painéis da SET Expo 2025, evidenciando que a jornada do DTV+ passa por múltiplos caminhos tecnológicos e estratégicos. A expectativa é que as próximas etapas do Fórum SBTVD consolidem uma visão integrada, com testes mais abrangentes e maior participação da indústria de dispositivos.



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