necrobótica Foto: Adobe Stock

Tecnologias disruptivas impactam positivamente o setor de saúde

4 minutos de leitura

Especialistas mostraram, durante o Web Summit Rio 2025, como a inovação tecnológica pode ajudar a desenvolver o segmento e melhorar a qualidade de vida das pessoas



Por Rafael Maia em 30/04/2025

Por definição, o adjetivo “disruptivo” diz respeito a algo que provoca ou pode causar rompimento; que interrompe o curso normal de um processo. À primeira vista, isso pode soar como algo negativo, mas nem sempre é o caso. Exemplos debatidos e apresentados durante o Web Summit Rio 2025 esclarecem como modelos e técnicas aplicadas no setor da saúde têm o potencial de contribuir para o desenvolvimento do setor e, consequentemente, para uma melhor qualidade de vida da população. 

A introdução da ideia de necrobótica e do aplicativo Modera SP mostram como o uso disruptivo da tecnologia pode contribuir para iniciativas que vão desde o combate ao uso nocivo do álcool até a utilização de IA na manipulação de aranhas mortas, em uma cirurgia no globo ocular de um paciente. Para ambos os casos, como mencionou o secretário-adjunto de desenvolvimento econômico e trabalho da Prefeitura de São Paulo, Armando Júnior, “a tecnologia foi feita para ser copiada e melhorada e, assim, trazer benefícios para muito mais gente”.

necrobótica
Da esquerda para a direita: Armando Júnior, Bettina Grajcer, Sandra Sabino e Martino Martinelli (Foto: Rafael Maia)

Modera SP traz inovação no combate ao consumo nocivo de álcool

Com a premissa de causar disrupção em estilos de vida não saudáveis, especialmente aqueles que incluem o consumo nocivo de álcool, a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, em parceria com a USP e a Agência Auíri, desenvolveram a ferramenta digital Modera SP. A solução está inserida dentro do app e-saúdeSP e conta com a assistente virtual Susana (nome inspirado no SUS) para guiá-lo pelo questionário AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test). Nele, o usuário responde até dez perguntas rápida para detectar o padrão de consumo diário.

A partir das respostas, a tecnologia classifica o grau de risco desse consumo em quatro categorias, que vai de “baixo risco” até “sinais possíveis de dependência”. Após essa parte incial de triagem, é posto em prática a segunda parte do processo: intervenção breve. Esse método, segundo o diretor da Unidade Clínica do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP, Martino Martinelli, tem origem no modelo transteórico de mudança de comportamento em saúde.

Essa filosofia, nas palavras de Martinelli, diz que para promover mudanças de hábito com a finalidade de atingir melhor qualidade de vida, é preciso considerar um aspecto não linear da proposta e, sim, em espiral, introduzindo reforços para fazer com que ela se instale de uma maneira progressiva e não abrupta. O aperfeiçoamento do conceito permitiu construir as bases da abordagem da prefeitura, com a integração à tecnologia que permitiu a ampliação do alcance.

“O refinamento desse conceito deu origem à intervenção breve e forneceu uma base psicológica muito robusta para o projeto. E esse conteúdo todo, dentro de um conceito virtual, permite uma sincronização e um aproveitamento muito maior”, ressaltou o também professor de medicina na USP.

Quando ainda era um piloto, em 2023, o programa foi implementado em 17 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Agora, o programa foi aberto para toda a cidade de São Paulo, ou seja, 479 UBS e 103 CAPS. De acordo com a CEO da Auíri, Bettina Grajcer, 63 mil pessoas usam a ferramenta e mais de 2,5 mil profissionais de saúde foram capacitados para auxiliar e instruir pessoas que desejam fazer o uso do Modera SP. Em um tom descontraído, ela traz um insight que traduz e explica esse crescimento: “as pessoas tendem a ser mais sinceras com seus celulares do que com seus médicos”.

Assim, por meio da tecnologia, a prefeitura encontrou uma solução — dentro de uma política pública de prevenção — que une tecnologia e inovação. Em resumo, a secretária executiva de Atenção Básica, Especialidades e Vigilância Sanitária na Prefeitura de São Paulo, Sandra Sabino, avaliou a plataforma como simples, eficaz , acolhedora e acessível.

Necrobótica une robótica, biologia e ciência da computação

Foto: Divulgação/ Preston Innovation Laboratory/ Rice University

Utilizar aranhas mortas para operar como robôs pode soar como uma espécie de experimento do tipo “Frankenstein”, mas é uma aposta do laboratório de Daniel Preston, da Universidade Rice, nos Estados Unidos, para procedimentos da área da saúde, como cirurgias no globo ocular. O engenheiro Preston e a estudante Faye Yap são os pioneiros no conceito de necrobótica, uma referência ao método de promover a robótica por meio de cadáveres.

O estudo, realizado com aranha-lobo (Lycosidae), insere uma agulha na câmara prossoma, que, ao ser preenchida por ar, se contrai e envia o fluido do corpo para as pernas, o que por sua vez, faz com que elas se estendam. Dessa forma, os pesquisadores conseguem controlar o movimento de extensão e contração, permitindo que as pernas funcionem como uma garra.

Além de uma alternativa a procedimentos médicos invasivos realizados com metal e plástico, a necrobótica gera, segundo o professor da Universidade Woxsen da Índia, Luis Angel, outras possibilidades para procedimentos com tecnologia nano IoT. Em painel apresentado durante o Web Summit Rio 2025, Angel destacou também a aplicação de inteligência artificial e machine learning na execução de cirurgias, para uma maior precisão.

Luis Angel (Foto: Rafael Maia)

“Tecnicamente, estamos falando de sistemas híbridos biológicos, arquitetura hidráulica, interfaces de ‘necromecânica’, micromanipulação e movimentos previsíveis utilizando IA e machine learning”, resumiu o professor.

Essa integração entre biologia, ciência da computação e robótica, que se vale de uma carcaça animal, traz implicações éticas do uso. Porém, segundo Angel, essa fronteira do que é moral e o que não é mais uma questão de caráter cultural do que científica. A atuação é apresentada por ele como eco-friendly e projetada para técnicas ainda mais complexas, com uso de outros animais como escorpião.


Matérias relacionadas

Luciano Saboia, diretor de pesquisa e consultoria em telecomunicações da IDC América Latina Inovação

IA redesenha “chão de fábrica” e produtos das operadoras

Especialista da IDC explica como a inteligência artificial se torna camada estrutural das redes, fortalece AIOps e abre espaço para ofertas customizadas e monetização via Open Gateway

Pessoa interagindo com um smartphone com ícones de inteligência artificial, linguagem de programação e analítica de dados, ilustrando aplicativos com IA. Inovação

Como criar aplicativos com IA sem conhecimento avançado de programação

Guia prático para profissionais que querem transformar ideias em software usando inteligência artificial

Mulher urbana usando jaqueta de pelúcia vermelha, com celular na mão, ao lado de um bonde amarelo na rua durante pôr do sol, ambiente de cidade moderna com pessoas ao fundo. Inovação

IA baseada em texto não equivale à inteligência humana, avaliam especialistas

Modelos de linguagem se baseiam na previsão de padrões de texto e não reproduzem os processos cognitivos da inteligência humana

Homem trabalhando em ambiente de escritório ilustrando a implementação da IA no RH Inovação

Do operacional à estratégia: como a tecnologia redefine o RH

Integração da tecnologia aos processos de recursos humanos acelera atividades operacionais e permite monitoramento de índices como o de inclusão e diversidade

    Embratel agora é Claro empresas Saiba mais