A agenda de tecnologia em 2026 será definida menos pela adoção pontual de inovação e mais pela capacidade das empresas de sustentar a inteligência artificial em escala. Segundo a consultoria IDC, a expansão das cargas de IA expõe gargalos de infraestrutura, acelera investimentos em nuvem e data centers, redefine a segurança digital e amplia o uso de agentes de IA, ao mesmo tempo em que a escassez global de memórias passa a influenciar preços, prazos e estratégias em toda a cadeia de TI e Comunicação (TIC).

As principais projeções da consultoria foram apresentadas pelo diretor-geral da IDC Brasil, Luciano Ramos, ao lado do diretor de Telecomunicações para a América Latina, Luciano Saboia; do diretor de Devices para a região, Reinaldo Sakis; e do diretor de Enterprise da IDC na América Latina, Pietro Delai.
1. Data centers e IA: hosting chega a US$ 1,7 bilhão

A IDC projeta forte expansão da demanda por data centers em 2026, impulsionada pela rápida disseminação de aplicações de IA. A inexistência de um ambiente dominante para essas cargas leva as empresas a combinar ambientes on-premises, colocation, hosting e nuvem, ampliando a necessidade de área física e de infraestrutura especializada. A densidade energética, que historicamente variava entre 5 e 10 kW por rack, passa a superar 50 kW em projetos voltados à IA.
Luciano Ramos destacou que esse movimento pressiona não apenas o espaço físico, mas principalmente a capacidade de energização e a velocidade de implantação dos projetos. Ao tratar do papel dos provedores, o executivo ressaltou que a diferenciação não se limita mais ao domínio tecnológico ou à especialização setorial. “Além de conhecer o setor do cliente, o provedor precisa entender os processos do dia a dia, entender como a operação funciona e onde a tecnologia realmente gera valor”, afirmou.
A IDC também aponta a escassez global de memórias como fator adicional de pressão sobre prazos e custos. No mercado brasileiro, o segmento de serviços de infraestrutura e hospedagem deve alcançar US$ 1,7 bilhão em 2026, com crescimento de 18,1%, o maior entre as 20 categorias de serviços de TI monitoradas pela consultoria.
2. Nuvem e IA corporativa: IaaS atinge US$ 4,4 bilhões
A nuvem se consolida como base preferencial para iniciativas de IA no Brasil. De acordo com a IDC, 69% dos líderes de TI e CIOs apontam a cloud como o modelo mais adequado para o consumo de IA generativa e agentes de IA, especialmente pela capacidade de escala.
Pietro Delai observou que a pressão da IA expõe limitações de muitos ambientes de nuvem atuais, exigindo revisões arquiteturais em um intervalo de tempo mais curto do que o normalmente esperado pelas empresas. O executivo acrescentou que a discussão sobre nuvem passa também pela questão da soberania dos dados, sobretudo em setores regulados. Segundo ele, cresce a preocupação com onde dados sensíveis são processados e armazenados, o que reforça a adoção de arquiteturas híbridas e soberanas como parte das estratégias de IA.
Para 2026, o mercado de infraestrutura como serviço (IaaS) deve crescer 18,6%, alcançando US$ 4,4 bilhões. A IDC estima ainda que 38% dos gastos com IA no Brasil estarão direcionados a infraestrutura e aplicações em nuvem, reforçando a consolidação do modelo híbrido como padrão.
3. Agentes de IA e IA composta: gastos superam US$ 3,4 bilhões

Os agentes de IA surgem como a próxima etapa da evolução do software corporativo, combinando modelos generativos, analytics determinístico e automações tradicionais. Para a IDC, 2026 marca o início da adoção mais estruturada desses agentes, embora questões de governança, segurança e integração ainda limitem sua expansão mais rápida.
Luciano Saboia destacou que muitas empresas já utilizam capacidades de IA embutidas em aplicações, sem tratá-las como projetos específicos. Esse uso difuso acelera a formação da base instalada e cria desafios adicionais de controle e padronização.
No Brasil, os gastos relacionados à implementação de IA, somando software, serviços e infraestrutura, devem superar US$ 3,4 bilhões em 2026, mantendo crescimento acima de 30% ao ano. A IDC aponta que 60% das organizações já utilizam algum tipo de IA embarcada em aplicações empresariais, enquanto 38% experimentam o uso de agentes de IA como orquestradores de processos.
4. Cibersegurança: US$ 575 milhões em soluções com IA
A inteligência artificial amplia tanto a sofisticação dos ataques quanto a capacidade de resposta das defesas. Para a IDC, esse desequilíbrio crescente impulsiona a demanda por serviços especializados e soluções de segurança habilitadas por IA.
Pietro Delai ressaltou que a segurança deixa de ser apenas um custo de proteção e passa a atuar como elemento viabilizador da escalabilidade digital, especialmente em ambientes com forte uso de IA.
Em 2026, os gastos com serviços de segurança no Brasil devem ultrapassar US$ 2,5 bilhões, crescimento de 14,8% em relação ao ano anterior. Desse total, cerca de US$ 575 milhões estarão associados a soluções que utilizam IA, incluindo automação de detecção, resposta e análise de incidentes.
5. Telecomunicações: IA aplicada à rede movimenta US$ 617 milhões na América Latina

No setor de telecomunicações, a IA passa a atuar como camada estrutural das redes, viabilizando automação avançada, operações baseadas em intenção e novos serviços digitais.
Luciano Ramos observou que a complexidade crescente das redes torna inviável a operação manual em larga escala, o que acelera a incorporação de inteligência artificial nos processos de rede e de atendimento.
A IDC projeta que os gastos com IA em telecom na América Latina superem US$ 617 milhões em 2026, com o Brasil respondendo por quase metade desse volume. O mercado cresce a uma taxa média anual de 37,2% entre 2024 e 2029, e 67% das operadoras brasileiras já apontam a IA como tecnologia central de suas estratégias.
6. Fibra e consolidação: FTTH supera 85% dos domicílios
A maturação do mercado de fibra óptica no Brasil leva operadoras e ISPs a priorizar eficiência operacional, escala e racionalização de ativos. A penetração de FTTH deve ultrapassar 85% dos domicílios até 2027, reduzindo o espaço para crescimento baseado apenas em expansão de cobertura.
Além da reorganização do setor, a IDC destaca que o avanço da fibra cria uma base mais robusta para serviços digitais avançados, como cloud distribuída, edge computing e aplicações de IA sensíveis à latência. Esse movimento reforça o papel da infraestrutura fixa como habilitadora da digitalização corporativa, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
7. Satélites LEO: mercado cresce 105% e passa de 1,5 milhão de acessos

A conectividade via satélites de baixa órbita passa a ser integrada às redes terrestres como complemento estratégico. O mercado brasileiro de LEO deve crescer mais de 105% até o fim de 2026, superando 1,5 milhão de acessos.
Segundo a IDC, 57% das empresas latino-americanas devem incorporar conectividade LEO às suas estratégias até 2029, combinando satélite, fibra e redes móveis para ampliar cobertura e resiliência.
8. IoT e M2M: conexões passam de 65 milhões
A desativação gradual das redes 2G acelera a migração para NB-IoT, LTE-M e 5G RedCap. A IDC projeta que o número de conexões M2M e LP-WAN no Brasil ultrapasse 65 milhões até 2026.
Os analistas observam que o refarming de espectro contribui para a redução de OPEX e para o aumento da eficiência das redes, ao mesmo tempo em que viabiliza novos casos de uso de IoT em escala.
9. Dispositivos com IA: 75% das vendas em 2026
Os dispositivos entram definitivamente na era da IA embarcada. Em 2026, cerca de 75% das vendas de computadores no Brasil devem contar com capacidades de IA, crescendo 15%, enquanto os dispositivos sem IA tendem a recuar 33%.
Reinaldo Sakis destacou que a base instalada ainda está em formação, mas já indica uma mudança estrutural no mercado. Smartphones com IA devem gerar US$ 12,5 bilhões, representando 88% do valor do mercado, enquanto notebooks com IA devem alcançar US$ 2,9 bilhões, o equivalente a 57% do segmento.
10. Escassez de memórias: impacto pode chegar a US$ 2,6 bilhões
A priorização global da IA na cadeia de suprimentos provoca escassez seletiva de memórias e pressiona preços. A IDC projeta aumentos imediatos entre 10% e 20%, com possibilidade de ultrapassar 50% ao longo de 2026.
O mercado brasileiro de dispositivos deveria totalizar US$ 25,3 bilhões, mas em uma avaliação moderada das adversidades esse valor pode ser reduzido em pelo menos US$ 1,3 bilhão. Em um cenário mais adverso, a perda pode chegar a US$ 2,6 bilhões, com normalização mais consistente apenas a partir de 2027.
Crescimento do mercado: B2B puxa a expansão em 2026

As estimativas da IDC para 2026 mostram dinâmicas distintas entre os mercados corporativo e consumidor. Enquanto o mercado total de TIC deve crescer 5,9% e o de TI 6,8%, o segmento de TI B2B se destaca com expansão de 11,9%, impulsionado principalmente por investimentos em IA, nuvem, segurança e modernização de aplicações. Segundo a consultoria, esse movimento reforça o papel do mercado corporativo como principal motor de crescimento do setor no Brasil.
