A ideia de analisar pilhas de currículos, gerir trilhas de ascensão profissional e conduzir processos de onboarding e desligamento sem o apoio de ferramentas de inteligência artificial (IA) já soa cada vez mais distante da realidade dos profissionais de recursos humanos (RH). Dados do “Censo do RH”, promovido pelo WallJobs em parceria com a Faculdade ESEG, indicam que três em cada quatro profissionais da área já utilizam a tecnologia em suas operações.
Para além do suporte às atividades cotidianas, o potencial da IA também é destacado no monitoramento de indicadores de diversidade e no desenvolvimento de competências profissionais. Segundo o professor de administração da Faculdade ESEG, Edgard Rodrigues, a “maioria dos respondentes (68%) acredita que a IA vai impulsionar a evolução profissional, por personalizar jornadas de desenvolvimento e acelerar a construção de competências estratégicas”. Sob uma perspectiva mais “humana”, 17,1% dos entrevistados apontam ainda o papel da tecnologia no acompanhamento de questões sociais, como inclusão.
Adoção acelerada começa pelas tarefas operacionais
O levantamento, fruto de uma pesquisa feita com 525 profissionais de RH, revelou que as aplicações mais comuns da IA se dão em atividades operacionais. A triagem de currículos lidera entre as áreas de uso da tecnologia ao ser mencionada por 61,5% dos respondentes. Em seguida, a gestão de cargos, que contempla sugestões de caminhos a trilhar na carreira, é citada por 44,7% dos profissionais. O apoio a desligamentos e processos de onboarding aparecem, respectivamente, com 39% e 34%.
Com o amadurecimento do uso, a tecnologia passa a assumir funções mais sofisticadas, com objetivos que não só geram resultados de eficiência através de automação. Um terço dos entrevistados afirmou recorrer à IA para identificar sinais de sobrecarga e risco de burnout. Para o fundador do WallJobs, Henrique Calandra, o dado “mostra que a tecnologia está sendo explorada não apenas para aumentar a eficiência em tarefas, mas para cuidar do bem-estar das equipes”.
Integração aos processos exige mudança cultural

Na prática, a incorporação da IA ao RH tem exigido mais do que a adoção de novas ferramentas. Na Supergasbras, com 4,6 mil funcionários, cerca de 20% das tarefas da área contam com apoio da tecnologia. O processo começou com a capacitação do time e a definição de metas de melhoria do uso da IA que envolviam todos os líderes da área. Já na primeira iniciativa, empregada na área de mapeamento de talentos, o resultado foi uma redução de cerca de 30% no tempo de elaboração de relatórios.
A experiência evoluiu para a criação de um assistente virtual interno, triagem de currículos e análises do clima organizacional. Essa expansão acompanha o dado apresentado por um estudo conduzido pelo LinkedIn que revela que 46% dos profissionais brasileiros de RH afirmam utilizar a IA cotidianamente em suas tarefas. A porcentagem é superior à média global de 29% e indica uma “liderança influenciada positivamente por uma mentalidade de proatividade e otimismo”, segundo a líder de soluções de talentos do LinkedIn Brasil, Ana Claudia Plihal.
Adoção de IA para além de ferramentas
No banco BS2, a adoção da IA esteve associada a uma transformação mais ampla de mindset. Em parceria com a área de tecnologia, o RH assumiu a liderança da agenda de IA, automatizando inicialmente processos simples, como a cobrança de treinamentos obrigatórios. A redução do tempo dessa tarefa, de mais de duas horas para poucos minutos, abriu caminho para aplicações mais complexas em recrutamento e people analytics.
Hoje, a tecnologia acelera processos de transcrição de entrevistas, análises de perfil e avaliações de desempenho, inclusive da alta liderança – antes conduzidas por consultorias externas. Para a superintendente de pessoas e cultura do banco BS2, Patrícia Braga, a “padronização dos relatórios e o acesso a análises mais completas sobre os executivos são os maiores ganhos”, uma vez que, com eles, “o conselho e o CEO passam a ter uma visão mais detalhada do desempenho da alta liderança”.
