Durante décadas, criar um aplicativo era tarefa restrita a programadores experientes. Mas uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial (IA) está mudando esse cenário ao converter descrições em linguagem natural em software funcional. A tendência foi apelidada de “vibe coding” e vem ganhando força entre empreendedores, profissionais liberais e educadores que hoje conseguem desenvolver protótipos, sites e automações sem escrever uma linha de código tradicional.
Plataformas como Claude Code, Cursor e Base44 utilizam modelos avançados de IA capazes de interpretar instruções textuais e gerar componentes completos que vão desde a interface até a lógica de negócio e integração com bancos de dados. O processo é relativamente simples, uma vez que o usuário descreve o que precisa, e a IA monta o esqueleto do aplicativo.
A popularidade do Claude Code, da startup Anthropic, ilustra parte desse movimento. Embora não tenham sido divulgados números absolutos, a empresa relata crescimento recorde nos últimos meses. Segundo a Anthropic, parte desse salto veio do período de festas, quando novos usuários testaram o recurso e descobriram sua capacidade de criar sites, apps e automações de maneira quase instantânea.
Como essas ferramentas funcionam

Na prática, esses assistentes são baseados em modelos de linguagem treinados com grandes volumes de código, documentação e exemplos reais de software. Assim, conseguem:
- Interpretar instruções em linguagem natural;
- Sugerir estruturas de código compatíveis;
- Montar interfaces e fluxos de navegação;
- Explicar cada etapa do processo;
- Ajustar o projeto conforme o usuário revisa e pede modificações.
Com isso, tarefas que antes levariam meses podem ser prototipadas em poucos dias e, em alguns casos, podem ser concluídas em poucas horas.
Cinco casos reais de apps criados por não programadores

Recentemente, o Estadão divulgou uma lista com cinco casos reais de não programadores que criaram soluções usando apenas comandos de IA. Confira:
1. Organização doméstica com IA
Sam Hindes, vice-diretor escolar na Austrália, criou um programa que identifica o dono de uma peça de roupa perdida na escola, simplesmente descrevendo a tarefa e mostrando fotos das camisetas para a IA. Agora ele usa isso para automatizar a separação de roupa suja em casa, algo que nunca pensou em fazer por programação tradicional. O programa pode ser utilizado também para automação pessoal, protótipos de visão computacional para tarefas repetitivas e outros.
2. Sites e portais interativos
O fotógrafo americano Rob Stephenson utilizou IA para gerar um site completo com mapa interativo, galerias de fotos e recursos extras como modo claro/escuro em cerca de um dia, tudo via prompts e ajustes simples com a IA. Agora o site pode ser usado por portais culturais, para criação de portfólios, landing pages empresariais, entre outras aplicações.
3. Apps para segurança pública
Chris Roberts, promotor nos EUA, construiu um app chamado AlertAssist usando ferramentas de IA. O app envia mensagens de alerta em massa em situações de emergência, um projeto que ele nunca teria iniciado sem a ajuda da IA e que agora pode ser usado também em comunicação em crises, ferramentas de resposta rápida, entre outras situações de emergência.
4. Simuladores educacionais
A professora Anne Haubo Dyhrberg usou IA para criar um simulador de negociação de ações em apenas duas horas para suas aulas de finanças, conseguindo protótipos reais sem apoio de equipe técnica. Atualmente o simulador pode ser usado para ferramentas educacionais e treinamentos de mercado.
5. Assistentes pessoais empresariais
No setor de serviços, o empresário Joe Bacus criou um assistente de IA que gera orçamentos, organiza contratos e gerencia agenda, conectando-se ao calendário e aos documentos da empresa sem código manual. O assistente pode ser usado também para automação de back-office em pequenas empresas.
Limitações e cuidados essenciais
Apesar dos avanços, criar software com IA não é tão simples assim. Em teoria, os usuários precisam conhecer as limitações para evitar frustrações e eliminar os riscos, uma vez que a IA ainda comete erros (especialmente técnicos). Um código gerado de forma equivocada pode resultar em bugs ou falhas de segurança. Vale ressaltar que quando o assunto é IA, é sempre recomendado a supervisão humana. Especialistas recomendam que testar o código antes da publicação pode ser uma boa alternativa para evitar problemas por “acreditar demais” em IA.
Especialistas também apontam que, embora a IA consiga gerar interfaces, elas podem ser pouco intuitivas ou incoerentes entre telas. Nestes casos, revisar a experiência do usuário é uma boa alternativa, além de fazer os refinamentos passo a passo.
Outro ponto importante é a questão da privacidade e segurança dos dados. A criação de aplicativos com auxílio de IA exige atenção redobrada à privacidade e à segurança das informações enviadas às plataformas. Muitos usuários acabam incorporando fotos, documentos sensíveis, dados de clientes e planilhas internas durante o desenvolvimento, sem perceber que essas informações podem ser armazenadas em servidores externos, retidas por mais tempo do que o esperado ou até utilizadas para treinar modelos, dependendo das políticas de cada serviço. Esse fluxo de dados, que ocorre de forma automática e geralmente invisível ao usuário, pode expor informações estratégicas ou pessoais a riscos desnecessários.
Por isso, especialistas recomendam cautela e algumas práticas essenciais. A primeira é evitar enviar dados pessoais não anonimizados e sempre verificar como a plataforma lida com armazenamento, retenção e uso de informações. Também é prudente optar por ferramentas que ofereçam controles de segurança claros, como criptografia, isolamento de sessões e mecanismos de anonimização. Aplicações que lidam com informações sensíveis não devem ser construídas sem a segurança adequada. Por isso exigem normas e regulamentações como a ISO 27001 (Norma Internacional de Gestão de Segurança da Informação), desenvolvida justamente para orientação sobre cibersegurança em processos de implementação, armazenamento, acesso e controle de dados.
