O mercado brasileiro de “cidades inteligentes” está em aceleração. Ainda em 2024, movimentou cerca de US$ 17,2 milhões e projeta saltar para US$ 61 milhões até 2030, refletindo um crescimento médio anual de 25,3% no período. Os dados são do Grand View Research. A guinada vem sendo considerada uma transformação urbana em curso, das redes de telecom e infraestrutura digital à mobilidade, segurança e governança pública, num momento em que municípios, empresas e governos começam a enxergar as smart cities como necessidade estratégica para eficiência, sustentabilidade e inclusão.
Cada vez mais municípios adotam sistemas digitais para gestão urbana. A iniciativa Rede GOV.BR, plataforma federal de governo digital, alcançou 1.800 municípios em 2025, ou seja, pelo menos 31% dos municípios do país, ampliando o acesso a serviços públicos digitais e fortalecendo a transformação digital no setor público.
Na prática, são serviços públicos mais ágeis, menos burocráticos, e com maior potencial de integração de dados e automação de processos críticos, que vão de licenças urbanísticas ao transporte público, passando por segurança, saúde e meio ambiente.
O conceito de desenvolvimento urbano conhecido como “cidades inteligentes” começou a ser formalizado nos anos 1990, ganhando destaque após a publicação do relatório “Smart Cities: Ranking of European Medium-Sized Cities” em 2007, resultado de uma pesquisa conduzida por acadêmicos da Universidade de Tecnologia de Viena.
Principais indicadores de inteligência urbana

De acordo com o relatório Cities in Motion, produzido pela IESE Business School (Universidade de Navarra, Espanha), o grau de desenvolvimento de uma cidade inteligente é avaliado a partir de nove dimensões centrais:
- Capital humano: abrange políticas voltadas à formação pessoal e profissional da população, com ênfase em educação de qualidade, inovação científica e estímulo à produção cultural.
- Coesão social: avalia a capacidade da cidade de promover integração comunitária, inclusão, acessibilidade e ações que fortalecem empatia, participação e pertencimento.
- Economia: considera iniciativas para fortalecer setores produtivos, atrair investimentos e fomentar o empreendedorismo.
- Governança: analisa práticas de gestão pública, envolvendo transparência, eficiência na alocação de recursos e compromisso com integridade administrativa.
- Meio ambiente: mede o grau de sustentabilidade das políticas urbanas, incluindo proteção ambiental, mitigação de impactos e incentivo ao uso racional de recursos naturais.
- Mobilidade: examina sistemas de transporte integrados, eficientes e acessíveis, fundamentais para a qualidade de vida e para uma cidade ambientalmente responsável.
- Planejamento urbano: engloba soluções de infraestrutura, gestão energética, sistemas de resíduos e iniciativas de modernização, como iluminação pública inteligente e redes urbanas conectadas.
- Projeção internacional: refere-se às estratégias de promoção global, turismo, participação em rankings e eventos internacionais, fatores que reforçam a visibilidade e competitividade da cidade.
- Tecnologia: considerado um eixo estruturante, reúne as ferramentas digitais que viabilizam serviços públicos inteligentes, segurança, sustentabilidade e inovação urbana.
Urbanismo 4.0: reconfigurando a cidade com dados e design
O conceito de “Cidade 4.0” ganha força como um novo paradigma do urbanismo: baseado em plataformas de dados, conectividade e colaboração, especialmente entre poder público, setor privado, academia e sociedade, esse modelo pretende tornar as cidades mais eficientes, sustentáveis e resilientes.
Um estudo recente que avaliou 27 capitais brasileiras através de critérios como inovação, bem-estar, sustentabilidade e governança concluiu que as cidades com melhor “smartness”, ou seja, mais preparadas para o futuro urbano, são aquelas com ecossistemas de inovação fortes, legislação favorável ao empreendedorismo, formação de capital humano e oferta de serviços digitais.
Isso reforça a ideia de que urbanismo contemporâneo não é só sobre asfalto, concreto e metrô, mas também sobre dados: sensores urbanos, infraestrutura IoT, monitoramento ambiental, mobilidade inteligente e serviços públicos orientados por tecnologia. Essa abordagem pode permitir melhor gestão de trânsito, otimização de energia, uso eficiente de recursos, e maior qualidade de vida para a população.
No contexto do sul do Brasil, mais especificamente em estados como o Paraná, há exemplos promissores: autoridades locais têm investido em tecnologias de detecção de riscos naturais, como deslizamentos, combinando geografia montanhosa e clima instável com sensores e monitoramento para prevenção de desastres.
As cidades mais inteligentes do Brasil
O Ranking Connected Smart Cities (CSC) 2025 aponta as cidades brasileiras que mais avançaram nas dimensões de conectividade, inovação, sustentabilidade e qualidade de vida. Com metodologia ampliada e inédita, o estudo passou a abranger os 5.570 municípios do país, oferecendo uma análise comparativa mais profunda por indicadores técnicos e sociais, e é considerado hoje a principal referência nacional para avaliar a maturidade das cidades brasileiras em sua trajetória rumo às smart cities.
O ranking é elaborado a partir da análise de 75 indicadores, organizados em 13 áreas temáticas que refletem diferentes dimensões do desenvolvimento urbano. Os resultados são apresentados em quatro recortes: posição geral, desempenho por eixo temático, comparação regional e faixa populacional, permitindo uma leitura ampla e detalhada do nível de inteligência das cidades. Entre os eixos avaliados estão Economia e Finanças; Governança; Meio Ambiente e Mudanças Climáticas; Resíduos Sólidos; Esgotos e Água; Educação; Habitação e Planejamento Urbano; Mobilidade Urbana; Saúde; Agricultura Local, Urbana e Segurança Alimentar; Telecomunicações; Energia; Inovação e Empreendedorismo; População, Condições Sociais e Segurança.
Confira o ranking das cidades mais inteligentes do Brasil em 2025:
- Vitória (ES): lidera o ranking geral em 2025 com gestão orientada a dados, integração entre sustentabilidade e governança digital, ampliação da digitalização de serviços públicos e investimentos em conectividade que impulsionaram o salto ao topo.
- Florianópolis (SC): tem forte ecossistema de tecnologia e startups, boa cobertura de conectividade e desempenho elevado em inovação e qualidade de vida. A capital catarinense vinha liderando as edições anteriores e se mantém entre as primeiras posições por seu polo tecnológico e ambiente favorável à inovação.
- Niterói (RJ): avanço notável em economia e finanças (lidera o eixo Economia e Finanças no CSC 2025) e desempenho consistente em tecnologia e mobilidade; destaque por políticas públicas e indicadores fiscais/administrativos que melhoraram sua posição nacional.
- São Paulo (SP): diferencial na escala (maior mercado, infraestrutura e ecossistema de inovação), destaque em mobilidade e empreendedorismo/inovação; embora enfrente desafios urbanos complexos, sua capacidade de implementar soluções digitais em larga escala a coloca entre as mais bem colocadas.
- Curitiba (PR): reconhecida por tecnologia & inovação e por indicadores sólidos em saneamento e gestão de resíduos; tradição em planejamento urbano e iniciativas de mobilidade sustentável permanecem como fatores de destaque no ranking.
- Recife (PE): líder no Nordeste no CSC 2025; diferencial em transformação digital e iniciativas de inovação pública que fortaleceram serviços digitais e conectividade, além de premiações/reconhecimentos em inovação urbana.
- Barueri (SP): destaque por eficiência administrativa, indicadores econômicos e adesão a práticas de governo digital (recebeu selo/ reconhecimento no ecossistema CSC).
- Santos (SP): a cidade deu um salto significativo em relação ao ano anterior, com diferencial em urbanismo, infraestrutura portuária integrada e investimentos em TIC, que ampliaram sua nota no ranking.
- Salvador (BA): a capital baiana é reconhecida no eixo “População e Condições Sociais” (prioriza inclusão social e políticas de equidade), além de subir posições no ranking nacional. Possui diferencial ligado a indicadores sociais e iniciativas de inclusão digital.
- Rio de Janeiro (RJ): a capital carioca recuperou posições em 2025 e figura entre as 10 primeiras. Tem como diferencial, os programas de conectividade urbana, projetos de governança e iniciativas que visam ampliar serviços digitais e segurança.
A regulação por trás das smart cities
Por trás das inovações, surgiu a necessidade de um marco regulatório e institucional robusto. Surgiu então o PL 976/2021, que propõe a criação da Política Nacional de Cidades Inteligentes (PNCI), um arcabouço legal para orientar municípios e estados na adoção de soluções de smart city, definindo diretrizes como inclusão digital, interoperabilidade de sistemas, governança participativa, sustentabilidade, inovação e incentivos para empreendedorismo.
A PNCI prevê que cada município elabore seu “Plano de Cidade Inteligente”, integrado ao plano diretor local (exigência para acesso a recursos federais). O objetivo é garantir que a tecnologia não seja aplicada isoladamente, mas alinhada a uma estratégia urbana coerente e participativa.
Embora o tema esteja avançando, o caminho ainda está longe de ser consolidado. Durante a tramitação do PL 976/2021, por exemplo, foi descartada a criação de um fundo nacional destinado exclusivamente ao financiamento de iniciativas de cidades inteligentes, uma decisão que mantém indefinidos os mecanismos de implementação para grande parte dos municípios e atrasa o contexto de implantação das novas tecnologias urbanas.
Pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo, também fazem um alerta: a expansão acelerada de tecnologias no ambiente urbano, quando não acompanhada de regulação adequada, transparência, proteção de dados e critérios de equidade, pode aprofundar desigualdades e ampliar a marginalização de grupos vulneráveis. Para esses especialistas, a construção de smart cities exige uma postura crítica, centrada na dignidade urbana e no bem-estar coletivo.
A PNCI estabelece diretrizes para orientar municípios na implementação de soluções inteligentes, destacando:
- inclusão digital,
- interoperabilidade de sistemas,
- governança participativa,
- integração com o plano diretor,
- estímulo à inovação e ao empreendedorismo urbano.
Por que o momento é agora?
O mercado está amadurecendo e crescendo rapidamente: com estimativa de triplicar receita em poucos anos, o setor de smart cities oferece oportunidades para empresas de tecnologia, startups, fornecedores de infraestrutura e consultorias. De acordo com a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), o mercado de cidades inteligentes no Brasil está projetado para alcançar cerca de US$ 1 trilhão em movimentação até 2027, destacando a importância da área para negócios e inovação no país.
- Governos ganham eficiência e agilidade: com a expansão da Rede GOV.BR e adoção de serviços digitais, municípios e estados podem oferecer serviços públicos de forma mais moderna, reduzindo burocracia e custos operacionais.
- Inovação urbana como estratégia de desenvolvimento sustentável: o urbanismo 4.0 permite planejar cidades resilientes, com mobilidade inteligente, uso racional de recursos, prevenção de riscos ambientais e inclusão digital, fatores decisivos para competir no século XXI.
- Necessidade de regulação e governança inclusiva: o sucesso das smart cities não depende apenas da tecnologia, mas de marcos regulatórios, participação da sociedade, proteção de dados e capacitação de gestores públicos. A PNCI (mesmo em andamento), é vista como um passo nessa direção.
Tecnologias habilitadoras: IoT, hiperconectividade e proteção de dados
A base tecnológica que sustenta a evolução das smart cities no Brasil passa, obrigatoriamente, pela expansão da Internet das Coisas (IoT), redes de alta velocidade e novos padrões de conectividade que unem infraestrutura física e digital. Sensores, câmeras inteligentes, dispositivos urbanos conectados e sistemas de automação são hoje os principais responsáveis por captar, transmitir e analisar dados urbanos em tempo real, elementos centrais para a operação eficiente de serviços públicos.
O Brasil deu um salto relevante com a aprovação do marco legal da IoT e com a consolidação de redes como 4G, 4.5G e, sobretudo, 5G. Nas cidades onde o 5G já está ativo, surgiram aplicações antes inviáveis, como monitoramento preditivo de enchentes, gestão inteligente de semáforos, telemedicina avançada e análise de tráfego por modelos de IA embarcados. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), 64,94% dos brasileiros já contam com cobertura da rede móvel de 5G, o que representa 2.019 municípios. “Nosso objetivo é levar conectividade de qualidade a todas as regiões, reduzindo desigualdades e promovendo oportunidades por meio da transformação digital”, disse o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, no site da Anatel.
Essa hiperconectividade, porém, traz desafios. Quanto mais sensores e sistemas são conectados, maior é o volume de dados sensíveis gerados, como padrões de deslocamento, hábitos de consumo, imagens de reconhecimento facial ou registros de serviços públicos. Para especialistas em regulação digital, o risco está na combinação entre expansão acelerada de dados, ausência de critérios claros de governança e capacidades técnicas insuficientes em muitos municípios.
Por isso a LGPD vem sendo considerada peça central para a construção de cidades inteligentes. Ela exige que os municípios garantam bases legais para o uso de dados, políticas de segurança da informação, relatórios de impacto e transparência para o cidadão. Isso significa desenvolver projetos urbanos que não apenas sejam tecnologicamente avançados, mas também éticos, auditáveis e responsáveis. A ampliação do uso de IoT, 5G e automação, coloca o Brasil em uma nova fase da digitalização urbana.
