A revolução da inteligência artificial, com modelos de linguagem, sistemas de recomendação, automação de decisões e grandes volumes de dados, trouxe ganhos em produtividade e inovação para as empresas, mas também acendeu um alerta global: como evitar que essas tecnologias reproduzam vieses, ataquem a privacidade, agravem desigualdades ou comprometam direitos fundamentais? A resposta mais ouvida dos especialistas é: não basta adotar IA, é fundamental governá-la.
Neste sentido, a expressão “governança de IA” faz referência às estruturas, aos processos e às políticas que definem como uma organização vai desenvolver, usar e auditar sistemas de IA. Isso inclui responsabilidades claras, como avaliações de risco, documentação, mecanismos de transparência e supervisão humana. Instituições como a IBM afirmam que, quando bem aplicada, a governança busca tornar a IA segura, ética e alinhada aos valores da empresa e da sociedade.
Nos últimos anos, o tema “governança de IA” deixou de ser uma preocupação exclusiva de técnicos do setor e virou prioridade em governos, conselhos corporativos e reguladores. A razão é uma só: IA sem regras representa risco real à reputação, à conformidade legal e à confiança de clientes e cidadãos.
Entenda o que é “Governança de IA”
De forma prática, governança de IA é o conjunto de políticas, normas, controles e processos internos (ou externos) que asseguram que sistemas de IA sejam desenvolvidos e utilizados com responsabilidade. Isso envolve definir papéis, responsabilidades, auditorias, documentação e revisões contínuas.
A União Europeia (UE) estabeleceu que a principal finalidade da governança de IA é assegurar o desenvolvimento e a implementação de IA de forma ética e responsável. Essa governança consiste em um arcabouço sistêmico de regras, processos, estruturas e ferramentas tecnológicas. Seu papel é alinhar o uso da IA com os princípios da organização, às exigências legais e aos padrões sociais e éticos. Ela se integra ao panorama de governança corporativa, mantendo interconexão com as áreas de TI e de dados.
O objetivo principal é mitigar riscos como vieses, discriminação, decisões automatizadas injustas, exposições indevidas de dados pessoais, falhas técnicas e abuso de poder, sem impedir que a tecnologia entregue seus benefícios.
Modelos acadêmicos como o “hourglass model of organizational AI governance” propõem que a governança atue em múltiplas camadas: institucional (estratégia e políticas), organizacional (processos e controles internos) e técnica (ao longo do ciclo de vida dos sistemas de IA).
Pressão global: como Europa, EUA e outros países têm avançado
A discussão ganhou força mundial especialmente após a aprovação do AI Act pela União Europeia, em 2024. O regulamento estabelece regras rígidas para sistemas de IA, adota abordagem baseada em risco, exige documentação detalhada, maior transparência e supervisão humana obrigatória. A legislação também proíbe usos considerados de “risco inaceitável”, como vigilância biométrica indiscriminada e sistemas de pontuação social.
Segundo a Comissão Europeia, o modelo regulatório já influencia empresas de diversos países que prestam serviços ao bloco. Nos Estados Unidos, debates sobre padrões mínimos de segurança e auditoria de algoritmos avançam, impulsionados por recomendações da Casa Branca e agências federais de tecnologia e direitos civis.
No cenário brasileiro, o tema passou a ocupar espaço central na agenda pública. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024-2028), publicado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), prevê a criação de um centro nacional de transparência algorítmica, diretrizes de avaliação de risco e incentivo à adoção de boas práticas de governança em organizações públicas e privadas.
Paralelamente, o Projeto de Lei (PL) 2338/2023 foi aprovado pelo Senado Federal em dezembro de 2024 e, atualmente, está em tramitação na Câmara dos Deputados. Ele busca estabelecer regras para o uso ético e responsável da IA no país. O MCTI afirma que a regulação é essencial para garantir confiança, competitividade e proteção de direitos fundamentais, posição reiterada por autoridades em pronunciamentos oficiais.
Mesmo com o avanço da discussão global, a estruturação de políticas corporativas no Brasil ainda é incipiente. A Pesquisa Setorial sobre Maturidade de Riscos Digitais das Empresas Brasileiras, desenvolvida pelo Markets Innovation & Technology Institute (Miti), revelou que apenas 27% das empresas brasileiras possuem políticas formais de governança de IA.
“O Brasil está adotando IA em escala, mas sem maturidade proporcional no controle do que os algoritmos fazem, por que fazem e quem responde quando erram. Isso abre espaço tanto para danos silenciosos quanto para eventos catastróficos”, destacou Flávia Brito CEO da Bidweb, em entrevista ao Tiinside.
Outro levantamento citado por especialistas aponta que oito em cada dez empresas não contam com estruturas robustas de governança, cenário que incentiva o surgimento da chamada “shadow IA”, quando colaboradores usam as ferramentas de forma improvisada, sem acompanhamento técnico, jurídico ou de segurança.
Governança de IA como pilar de ESG e reputação corporativa

Apesar das lacunas, há sinais de avanço. Empresas já estão criando comitês internos de IA, desenvolvendo frameworks próprios, estruturando auditorias de modelos e implementando regras de compliance algorítmico, especialmente em setores financeiros, varejistas e de saúde.
A consolidação da governança de IA como prática institucional também fortalece estratégias de ESG. Segundo reportagem da TOTVS, empresas que adotam políticas claras de uso da IA demonstram maior compromisso com transparência, mitigação de riscos e proteção de direitos, fatores que influenciam diretamente a confiança de consumidores, investidores e reguladores.
Em áreas sensíveis como crédito, seguradoras, RH e serviços públicos, sistemas automatizados impactam a vida de milhões de pessoas. Por isso, práticas como documentação de algoritmos, testes contra vieses, registro de decisões e supervisão humana passam a ser elementos centrais da reputação corporativa.
