A combinação de fatores estimulantes e depressivos, que caracterizam vícios e outros problemas psicológicos, também se revela como um agravante dos impactos nocivos das plataformas digitais. Em entrevista ao portal G1, a psicóloga clínica Ana Grasieli Lustosa destacou que a pressão por produtividade e a obrigação de promover a própria imagem induzem à repressão de emoções que fazem parte da subjetividade, o que induz a um esgotamento autoimposto. Em contrapartida, um estudo realizado pela MEVBrasil (Escola Brasileira de Medicina do Estilo de Vida) advertiu sobre os riscos dos mecanismos feitos para desencadear compulsão, senso de recompensa e engajamento.
Conforme o estudo de medicina comportamental, há casos em que a hiperconectividade deixa de representar um uso avançado da tecnologia e se torna um fator de improdutividade, com ambientes digitais desenhados para manter o usuário continuamente engajado. Nesse contexto, os sistemas digitais não apenas acompanham preferências, mas modelam comportamentos.
Recursos como algoritmos de recomendação pouco transparentes, fluxos contínuos de conteúdo, notificações frequentes e recompensas variáveis criam ciclos de estímulo que favorecem o prolongamento do uso. Esses mecanismos ativam continuamente circuitos cerebrais associados à recompensa, dificultando a autorregulação e ampliando comportamentos compulsivos.
A psicóloga Ana Grasieli Lustosa chama atenção para o que descreve como um “adoecimento silencioso”. Trata-se de quadros em que o indivíduo mantém desempenho funcional, mas acumula exaustão emocional não verbalizada. A cultura da produtividade constante e da motivação permanente contribui para a repressão de limites naturais, reforçando sentimentos de inadequação e comparação contínua, especialmente em ambientes mediados por redes sociais e métricas de desempenho.
Autoengano sobre performance, resiliência e maturidade digital
Um dos pontos destacados pela InfoMoney do estudo da MEVBrasil é sobre a prática recorrente da “multitarefa digital”; de alternar entre múltiplas telas, aplicativos e fluxos de informação. Apesar de muitos perceberem como ganho de eficiência, essa dispersão tende a comprometer a produtividade e a qualidade de cada atividade.
Na entrevista ao G1, a psicóloga esclarece que o cérebro humano não foi preparado para o volume de informações e estímulos recebidos atualmente.
O esvaziamento da intencionalidade no uso da internet, segundo o estudo, faz parte da própria lógica de negócio de plataformas como redes sociais. Os resultados dependem diretamente do tempo de uso, da coleta de dados e da frequência de retorno dos usuários. Para sustentar esse modelo, entram em cena estratégias como design persuasivo, presença constante em diferentes canais, segmentação algorítmica de mensagens e barreiras práticas à redução do uso. O resultado é um ecossistema no qual desconectar exige esforço consciente, enquanto permanecer conectado é o comportamento padrão.
Os pesquisadores da MEVBrasil estimam que 5% dos usuários adultos têm uma relação compulsiva com a internet. A psicóloga cita sinalizadores, como ansiedade quando o celular está longe ou inativo, ou a pressa de olhar mensagens e posts ao acordar.
Entre os exemplos mais sensíveis desse cenário estão as plataformas de apostas online. Segundo o estudo, mais de 10 milhões de jogadores no Brasil despertam preocupação e 1,4 milhão já apresentam sintomas de transtorno.
A combinação de acesso facilitado, estímulos constantes e promessas de ganho rápido amplia o risco de comportamentos compulsivos. Os apostadores online têm quatro vezes mais probabilidade de desenvolver dependência, comparados aos jogos tradicionais.
Mais do que a quantidade de tempo conectado, especialistas destacam a importância de avaliar a qualidade do uso, os contextos de exposição e a capacidade de interrupção voluntária.
