Com 85% dos lares com conexão à Internet, a 21ª edição da pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Cetic.br, revela que o acesso à rede está próximo ao ponto máximo de massificação (em que só se excluem as parcelas muito vulneráveis ou os indivíduos mais resistentes). Todavia, as condições e os hábitos de uso afetam a experiência e a apropriação dos benefícios da diversidade de aplicações e das inovações no ambiente digital. “Não basta superar a barreira da conexão”, afirmou o coordenador da pesquisa, Fábio Storino.

O pesquisador explica que o conceito de “conectividade significativa” é um indicador global que considera ter banda larga por um custo razoável; usar vários tipos de dispositivos; a qualidade da conexão; e a diversidade de ambientes em que navega. “Enquanto 85% estão conectados, apenas 20% contam com as melhores condições de acesso”, observa.
O levantamento da TIC Domicílios inclui entrevistas presenciais com 27 mil domicílios em todo o país, realizadas entre março e agosto deste ano.
Nesta edição, são acrescentados indicadores sobre uso de GenIA e apostas online. Outro indicador inédito é sobre o esgotamento do pacote de dados. No total, 39% tiveram suas franquias esgotadas antes de um mês, o que chega a 49% entre as classes D e E e 68% dos usuários de planos pré-pago.

Conforme as declarações dos entrevistados, os usuários de Internet totalizam 157 milhões de pessoas. “Mas quando olhamos como usam o celular, alguns que dizem que não usam, na prática, acessaram algum serviço sem saber que passam pela Internet. Com essa ponderação, o número vai para 163 milhões”, nota Storino.
Na média, 65% têm acesso apenas pelo celular. Esse uso restritivo chega a 84% entre os usuários de menor escolaridade; 87% entre os de menor renda; 81% dos com mais de 60 anos; e 73% entre pretos. O computador, por sua vez, está presente em 97% dos domicílios de classe A; 34% na classe C; e 10% nas classes D e E.

Escolaridade e estratégia dos empregadores determinam habilidades com IA
A pesquisa revela que cerca de 50 milhões de usuários já incorporaram ferramentas de GenIA em suas rotinas. Contudo, essa média de 32% tem uma distribuição muito assimétrica. O índice chega a 69% na classe A, e fica em 16% nas classes D e E. Entre os usuários com terceiro grau atinge 59%, enquanto fica em 17% entre os com ensino fundamental.
Entre aqueles que não utilizaram IA nos últimos três meses, na média 76% alegaram falta de interesse ou necessidade; 58% citaram falta de habilidade; 52% afirmaram não ter conhecimento da existência dessas soluções; e 63% declararam preocupações com segurança ou privacidade. A falta de habilidade e conhecimento foi mencionada como barreira por 65% das pessoas com escolaridade fundamental.
“À medida que a IA ganha relevância em diferentes esferas da vida cotidiana, a desigualdade na apropriação dessa ferramenta entre os diferentes estratos de renda e escolaridade torna-se um elemento que chama a atenção”, adverte Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.
“A expansão da IA generativa evidencia os desafios da inclusão digital no Brasil. O acesso à tecnologia não basta se a conectividade for limitada, ou faltarem habilidades digitais. Esse cenário indica que os benefícios da IA, como ganhos de produtividade e novas formas de aprendizado, podem continuar concentrados nos grupos que, historicamente, já possuem mais oportunidades”, acrescenta Storino.
Outros dados sinalizam o papel das lideranças das empresas e das pressões objetivas no letramento em IA. O uso de GenIA chega a 39% entre os trabalhadores, enquanto é de 22% entre os que estão fora do mercado. Entre os empregados formais, 43% já incorporaram IA em suas atividades, 10 pontos percentuais a mais do que entre os informais.
Menos postagens, mais apostas
Em relação às atividades na Internet, pelo menos 92% usam aplicativos de mensagens; 58% acessam bancos ou meios de pagamento; 78% já realizaram transações por PIX.
Os percentuais de acesso a vídeos e conteúdos multimídia caíram de 77% a 71% entre 2024 e 2025, assim como os compartilhamentos foram de 67% a 62%, e as postagens de 41% a 30%. “Houve uma redução nas publicações, mesmo com as facilidades das novas ferramentas de IA”, nota Storino.
Embora não tenha dados comparativos, o primeiro levantamento sobre apostas online revela que praticamente 20% dos usuários já usaram essas plataformas. “Nesta TIC Domicílios, conseguimos identificar a proporção de usuários de Internet no país que já utilizaram bets e fizeram apostas online. Um tema que tem gerado grande preocupação de toda a sociedade, não só pelo aspecto econômico, mas até o de saúde mental. E o que vemos revelado é um número que considero bastante alarmante: temos cerca de 30 milhões de pessoas acima dos 10 anos que já realizaram algum tipo de aposta online. Esse dado geral, e outros mais específicos que foram coletados, reforçam a urgência em se estabelecer mecanismos regulatórios e de literacia digital mais robustos sobre os riscos que envolvem a prática de jogos e apostas no meio digital”, defende Renata Mielli, coordenadora do CGI.br.Além de disponibilizar o acesso à íntegra do relatório, no site da TIC Domicílios é possível visualizações mais granulares, com cortes regionais e outros critérios.
