O Brasil dará um passo no fortalecimento da infraestrutura digital com a liberação de R$ 600 milhões em crédito para a construção e ampliação de data centers. O recurso, disponibilizado pelo Ministério das Comunicações por meio do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), será operado pelo BNDES e busca acelerar a transformação digital do país, reduzir desigualdades regionais e aumentar a competitividade global em um cenário cada vez mais orientado por dados.
A medida, anunciada dentro do planejamento do triênio 2023-2025, atende a uma demanda crescente que estima que o volume global de dados chegue a 600 trilhões de gigabytes até 2030. No Brasil, onde os 126 data centers existentes estão concentrados sobretudo no Sudeste, a expansão da infraestrutura é vista como uma maneira de descentralizar serviços, melhorar a eficiência e ampliar a oferta de soluções digitais a cidadãos e empresas.
Regiões Norte e Nordeste como prioridade
O crédito anunciado terá foco em regiões menos atendidas, especialmente Norte e Nordeste, que hoje contam com apenas dois data centers em operação. Para incentivar a interiorização, o governo oferecerá taxas de juros reduzidas, a partir de 6,3% nessas regiões, contra 8,5% no restante do país. A aposta, segundo o ministro das comunicações, Frederico de Siqueira Filho, é que “em uma era tão digitalizada, preparar o Brasil para ter maior autonomia trará benefícios econômicos, geração de empregos e desenvolvimento para o país”.
Já o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, avalia que a matriz energética brasileira, composta em 90% por fontes limpas, oferece vantagem competitiva frente a outros países. Isso porque os data centers são estruturas intensivas em consumo de energia, e a sustentabilidade da operação é um fator de atração para empresas globais de tecnologia.

O Brasil tem vantagem com sua matriz energética renovável, mas especialistas alertam para o gargalo brasileiro na transmissão. De acordo com o head de mercado não regulado da Enel, Francisco Scroffa, a maior parte da energia é produzida no Norte e Nordeste, mas o consumo se concentra no Sudeste. O problema dessa configuração está na rede atual não comportar a transferência de carga de forma segura. A sugestão da companhia é que empresas considerem a instalação de data centers próximos às fontes renováveis para preservar o fornecimento e ter um melhor custo-benefício.
Energia, redes e construção
A expansão, no entanto, não depende apenas de crédito; exige integração entre redes, energia limpa e industrialização da construção. Especialistas do setor concordaram, durante o Data Center AI & Cloud Summit, que a coordenação entre esses fatores é estratégica para que o Brasil acompanhe o ritmo imposto pela inteligência artificial e pelo crescimento da nuvem.
De acordo com diretor de vendas do Grupo de Soluções de Infraestrutura (ISG) da Dell Technologies, Wellington Menegasso, a atual demanda computacional exige arquiteturas mais robustas. Isso implica repensar a refrigeração, buscar redes com latência inferior a 100 nanosegundos e sistemas de telemetria conectados à nuvem da Dell, como reportou o site tele.síntese.
Ainda no debate sobre redes, o diretor de engenharia de vendas da Ciena, Décio Coraça, atentou que as estratégias digitais que garantem a interligação entre data centers exigem automoção completa e interface aberta, além de ganhos em escalabilidade, economia de energia e flexibilidade.
Na área de construção, o vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Modular, Marcos Paraiso, defende a industrialização como solução para reduzir riscos e prazos. Projetos que levariam dois anos podem ser concluídos em menos de dez meses, ao transferir 70% das etapas para ambiente fabril. Essa abordagem, segundo ele, envolve engenharia de precisão, conectividade embarcada e estruturas de aço para acelerar a construção dos data centers, que, com a expansão da IA, observam uma demanda crescente de até 30% ao ano.
