Imortalidade digital e transumanismo Imagem gerada por Inteligência Artificial

Gianneti analisa promessas e distopias de eterna juventude e da imortalidade digital

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Expectativa de estender a vida física em um corpo híbrido ou transferir a subjetividade a um código por meio de tecnologias se soma ao repertório religioso e secular de busca por superar a morte



Por Redação em 29/08/2025

Embora o instinto, mesmo que fantasioso, de perenizar a existência seja antigo nos mitos e também na filosofia secular, a cultura do Vale do Silício acrescentou uma nova modalidade: o transumanismo. A ideia tem duas vertentes: o prolongamento da vida física com implantes de nanotecnologia, recomposição genética e outros artifícios biotecnológicos, ou a transferência da personalidade para um sistema neurológico digital. Esse é o tema do artigo “Imortalidigitalização”, no Brazil Journal, adaptado do livro Imortalidades, recém-lançado pelo economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca.

O artigo aponta que a fantasia transumanista parte da premissa de que os seres humanos são o problema, ao passo que a tecnologia é a solução. Esta visão é criticada por seu reducionismo, que sugere que as pessoas não passam de “máquinas (anacrônicas e imperfeitas) de processamento de dados” e que todo o universo mental pode ser replicado em linhas de programação.

O transumanismo californiano é enquadrado como parte da família de “fantasias de absoluto controle e assenhoreamento da natureza”, que frequentemente resultam em “temíveis e ameaçadoras formas de descontrole”.

Novas tecnologias, velhas ilusões

Em entrevista sobre o novo livro, o autor lembra que a ideia de uma consciência que transcende o corpo e o tempo de vida não é exclusiva do pensamento religioso. A própria noção de “alma” da cultura ocidental, mesmo tendo se fundido à tradição monoteísta, vem em grande parte do pensamento platônico. Na vertente idealista do filósofo, não associada à religiosidade, o corpo e sua existência física chegam a atrapalhar a função da mente, cujo papel seria lidar com o pensamento puro.

Giannetti enumera obras como O Imortal, de Machado de Assis; O Imortal, conto do livro O Aleph, de Jorge Luís Borges; Todos os homens são mortais, de Simone de Beauvoir; e O Segredo de Makropulos, de Karel Čapek, entre as referências da literatura clássica aos temas de seu livro.

Em um contexto mais contemporâneo, embora não exatamente novo, o autor critica também os mitos “tecnossolucionistas”, segundo os quais todos os problemas da humanidade teriam soluções técnicas. A tendência remete ao positivismo do início do século passado, que foi descrito de forma visionária por Machado de Assis, em O Alienista, assim como seus riscos foram bem sinalizados pelo enviesado Nilo Argolo, personagem de Tenda dos Milagres, de Jorge Amado. “Enquanto a religião responde o mistério, a má ciência tem a ilusão de eliminar o mistério”, compara.



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