Profissional em ambiente corporativo cumprimenta com aperto de mãos enquanto sorri, simbolizando cooperação e negócios globais com foco em soberania e parceria entre pessoas e empresas. Foto: Insta_photos / Shutterstock / Modificada com IA

Como a soberania fortalece a cooperação e os negócios globais

4 minutos de leitura

Semelhante ao GDPR e à LGPD, e com efeitos em maior escala, padrões de controle e responsabilidades sobre infraestrutura e dados dão base estável à criação e aprofundamento de serviços digitais



Por Redação em 16/07/2026

Previsibilidade, comprometimento consequente, segurança contratual, balizas éticas, legais e culturais, junto à capacidade de contextualizar, otimizar e desenvolver casos de uso para as tecnologias, são condições favoráveis tanto às iniciativas empresariais quanto à macroeconomia e à sociedade. Esses são os eixos da discussão pragmática sobre nuvem soberana.

Conforme define um estudo da Omdia, do ponto de vista operacional, as nuvens soberanas devem assegurar controle por meio de localização física de dados restritos, autonomia lógica de operações e controle de chaves de criptografia (BYOC e BYOK) e conformidade integral à jurisdição local, blindando as informações contra regulações extraterritoriais. Para isso, provedores globais, como AWS e Oracle, já anunciam infraestruturas segregadas do serviço mundial, enquanto outros adotam parcerias de operação com agentes locais em território nacional.

Evidentemente, eventos de grandes rupturas em cadeias de valor, como bloqueios em sistemas de pagamentos (com o Swift) ou a desativação intempestiva de um SaaS (no caso mais recente da Anthropic), dão um tom mais contundente ao tema, por subordinar contratos a determinações políticas. Contudo, no dia a dia dos projetos, a configuração de nuvens soberanas tem a ver com questões de compliance, estabilidade, eficiência operacional, agilidade e várias estratégias relacionadas à competitividade e qualidade dos serviços.

Uma reportagem da Exame sobre o Índice de Soberania Digital destaca quatro critérios de autossuficiência – hardware, software, capital intelectual e governança – em um ranking liderado por China, Rússia e França. O Brasil fica na 48ª posição. A revista menciona que o Brasil possui boas instituições acadêmicas, empresas inovadoras e um forte mercado digital, enquanto depende fortemente de estrutura tecnológica estrangeira. Mais difícil se fosse o contrário. São exatamente esses fatores de capacidade técnica, lideranças e demanda qualificada, com uma população altamente receptiva à inovação digital, que dão sentido aos investimentos em nuvem soberana.

A proporção entre o consumo de serviços digitais e a estrutura instalada no país tende a ser revertida com o aproveitamento de vantagens competitivas para datacenters locais, fortalecidas por programas como o ReData.

Os temas de capital humano e governança, por sua vez, se entrelaçam nas estratégias de provedores globais, parceiros especializados e das organizações. Com instituições de referência – de escolas técnicas a centros de P&D – e companhias que investem na formação de competências, a qualificação tecnológica é um desafio para o qual estamos preparados para lidar. Além de capacidades como engenharia e desenvolvimento, os profissionais no Brasil são imprescindíveis em projetos como serviços de governo em escala continental, assim como estão acostumados a lidar com um dos sistemas financeiros mais avançados do mundo.

Tais competências humanas são demandadas diretamente pelo avanço veloz da inovação empresarial. Dados da pesquisa TIC Empresas comprovam uma digitalização acelerada em todos os segmentos, acompanhada do crescimento significativo da adoção de serviços em nuvem e de ferramentas de Inteligência Artificial. São justamente as boas políticas de governança, balizadas por regulações e articulações setoriais, que conferem previsibilidade e segurança para que esses avanços em inovação sejam sustentáveis e garantam a proteção de dados sem asfixiar os produtos.

Sem governança, ninguém é soberano nem em relação ao acaso. Essa agenda inclui arranjos para assegurar a disponibilidade e controle sobre os recursos de infraestrutura e outros objetivos, como previsibilidade financeira (FinOps), segurança jurídica e todas as políticas de segurança e conformidade.

Pix é alavancador amplo da economia digital

Mão segurando um smartphone com Pix aberto, enquanto um notebook fica sobre a mesa ao fundo.
Foto: Photo For Everything / Shutterstock / Modificada com IA

Em reportagem na Times Brasil, o especialista em Direito Digital, José Milagre, argumenta que a razão dos ataques do Escritório de Comércio dos EUA ao Pix se justifica menos por atingir a receita das corporações de pagamentos do que por retirar delas grandes volumes de dados sobre movimentações financeiras.

O advogado lembra que as legislações sobre tratamento de dados, como o GDPR e a LGPD, também teriam afetado modelos de negócios concebidos para exploração de dados. Contudo, em ambos os casos esses fatores funcionam como grandes habilitadores de negócios, por caminhos diferentes. Enquanto o Pix estabelece uma infraestrutura e muitas vezes funciona como porta de entrada para produtos financeiros, a LGPD dá parâmetros claros para personalização e relacionamento, com o cliente sempre no centro das decisões.

O ambiente tecnológico que viabilizou o Pix conta uma história de autonomia motivada pelas condições da economia e dos negócios. Tudo começa com o enfrentamento à instabilidade e outras perdas, que justificavam a adoção de tecnologias em escalas inusitadas para os próprios fabricantes. Os investimentos explicam parte desses resultados. Outra peculiaridade que permitiu o sistema financeiro mais interconectado do mundo foi a articulação setorial, para estabelecer não apenas padrões de interoperabilidade, mas também esquemas colaborativos de governança. Tudo isso com compartilhamento de dados em alto volume e criticidade.

Autonomia para aproveitar o melhor da indústria global

Diferente de abordagens como “substituição de importações” ou de verticalização das cadeias de suprimentos, indústrias como finanças e telecomunicações, assim como outros grandes investidores em tecnologia de organizações públicas e privadas, se dedicam muito à prospecção e aproximação com os desenvolvedores globais de inovações.

Pela escala das operações de alcance nacional, em um mercado com a dimensão do Brasil, vários fornecedores de todo o mundo têm interesse em acelerar o acesso a novas tecnologias. Dentro das organizações, a tendência de substituição de padrões proprietários por soluções abertas acentua a flexibilidade e agilidade para aprofundar os serviços, reduzir custos e aproveitar o melhor que o mundo tem a oferecer em cada momento.

A visão estratégica de autonomia não implica necessariamente autossuficiência. Mais uma vez, a indústria financeira no Brasil ilustra bem esse equilíbrio. Embora continuem investindo em seus gigantescos datacenters on premise, os bancos também são grandes usuários de nuvem, tanto por fatores de eficiência operacional e escala, quanto para aproveitar as inovações de serviços nativos das nuvens. Segundo a 34ª Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, somente os aportes destinados especificamente à migração para sistemas cloud e à modernização saltaram 30% em apenas um ano, totalizando R$ 3,9 bilhões investidos em 2025. Esse cenário se justifica pelo fato de que a computação em nuvem é considerada prioridade para 84% das instituições financeiras, que necessitam da altíssima escalabilidade dessas infraestruturas para lidar com a demanda de integração de sistemas complexos e processar o alto volume transacional de meios 24×7, como o próprio ecossistema nacional e soberano do Pix.



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