Profissionais de tecnologia em sala de servidores com luzes vermelhas, monitor exibindo um padrão de dados e colaboração para segurança e soberania digital em infraestrutura de TI Foto: DC Studio / Shutterstock / Modificada com IA

Soberania digital: dados, IA e infraestrutura agora são ativos estratégicos para os países

4 minutos de leitura

Entenda por que governos investem em governança digital e cibersegurança para ampliar sua autonomia tecnológica



Por Redação em 08/07/2026

Durante décadas, recursos como petróleo, energia e rotas comerciais ocuparam o centro das disputas entre países. No século XXI, porém, outro ativo passou a desempenhar um papel estratégico: a informação. Dados, redes de comunicação, serviços em nuvem, inteligência artificial e sistemas digitais sustentam desde operações bancárias até hospitais, serviços públicos, telecomunicações e cadeias industriais. Quanto maior a dependência de tecnologias críticas desenvolvidas, controladas ou fornecidas por terceiros, maior também pode ser a exposição a riscos econômicos, regulatórios e geopolíticos. Por isso, a expressão soberania digital passou a integrar o vocabulário de governos, empresas, pesquisadores e organismos internacionais. 

Recentemente lançado, o livro “Soberania Digital e Inteligência Artificial no Brasil: rumo à autonomia tecnológica”, produzido pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio (CTS-FGV) no âmbito do projeto CyberBRICS, é um exemplo desse movimento. A publicação analisa como a cibersegurança, governança da inteligência artificial e políticas públicas podem fortalecer a autonomia tecnológica do país. Mas afinal, o que significa soberania digital? E por que esse conceito se tornou tão relevante?

Por que o tema se tornou estratégico?

Não existe uma definição única, mas há um consenso crescente de que soberania digital diz respeito à capacidade de um país, organização ou sociedade de compreender, desenvolver, utilizar e regular tecnologias digitais de forma autônoma, preservando sua capacidade de decisão sobre ativos estratégicos como dados, softwares, hardwares e redes.

O projeto CyberBRICS define soberania digital como a capacidade de entender o funcionamento das tecnologias digitais, desenvolvê-las e regulá-las efetivamente, exercendo autodeterminação, poder e controle sobre ativos digitais.

Na prática, isso não significa produzir toda a tecnologia internamente ou abandonar fornecedores estrangeiros. Em vez disso, envolve reduzir dependências críticas, diversificar capacidades e garantir que decisões estratégicas permaneçam sob controle das instituições nacionais.

Essa interpretação também aparece nas discussões da União Europeia, que entende soberania digital como a capacidade de decidir, investir e inovar de forma independente, mantendo-se aberta à cooperação internacional e às redes globais.

A transformação digital ampliou a dependência de infraestruturas altamente especializadas. Serviços financeiros, sistemas de saúde, energia, logística, educação e comunicações utilizam plataformas digitais que dependem de data centers, redes de alta capacidade, computação em nuvem e inteligência artificial. Ao mesmo tempo, grande parte dessa infraestrutura está concentrada em poucas empresas globais, especialmente nos mercados de nuvem, semicondutores e modelos avançados de IA. Um cenário que faz com que governos discutam não apenas inovação, mas também resiliência, continuidade de serviços essenciais e capacidade de resposta diante de crises, disputas comerciais ou incidentes cibernéticos.

Os cinco pilares da soberania digital

1. Infraestrutura: a base da soberania digital está na infraestrutura. Ela inclui data centers, redes de telecomunicações, cabos submarinos, computação em nuvem, sistemas de energia e capacidade computacional. Sem essa estrutura, aplicações de inteligência artificial, serviços públicos digitais e plataformas privadas simplesmente não funcionam.

2. Dados: são considerados um dos ativos mais valiosos da economia digital. Assim, garantir onde essas informações são armazenadas, quais legislações se aplicam ao seu tratamento e quem pode acessá-las tornou-se uma preocupação estratégica para governos e organizações. Por isso, políticas de proteção de dados caminham lado a lado com iniciativas voltadas à soberania digital.

3. Inteligência artificial: a IA ampliou a importância da soberania digital porque depende de recursos altamente concentrados. Treinar modelos avançados exige grandes volumes de dados, chips especializados, infraestrutura de computação e energia. Como boa parte desses recursos está sob controle de poucas empresas e países, diversos governos passaram a investir em capacidades próprias de pesquisa, infraestrutura e governança da IA.

4. Cibersegurança: autonomia tecnológica também depende da capacidade de proteger infraestruturas críticas contra ataques cibernéticos. Setores como energia, transporte, telecomunicações e serviços financeiros exigem mecanismos robustos de prevenção, monitoramento e resposta a incidentes. Sem segurança, não há confiança nem continuidade operacional.

5. Governança: soberania digital não é apenas tecnologia. Ela também envolve instituições, legislação, capacidade regulatória e políticas públicas capazes de equilibrar inovação, concorrência, proteção de dados e desenvolvimento econômico.

O caso brasileiro

No Brasil, o tema ganhou destaque em diferentes frentes. Nos últimos anos, o país consolidou instrumentos como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e ampliou os debates sobre governança da inteligência artificial, infraestrutura digital e serviços públicos digitais.

Mais recentemente, discussões envolvendo o Pix, plataformas digitais e proteção de dados também passaram a integrar disputas comerciais internacionais, demonstrando que questões tecnológicas podem ter impactos econômicos e geopolíticos. Especialistas apontam que ativos como sistemas de pagamento, dados e infraestrutura digital passaram a integrar as estratégias nacionais de desenvolvimento e segurança.

Soberania digital significa isolamento?

Não. Esse talvez seja o maior equívoco em torno do conceito. A maioria dos estudos e iniciativas internacionais não propõe desconectar países da economia global nem substituir integralmente tecnologias estrangeiras. 

O objetivo é ampliar a capacidade de escolha, reduzir vulnerabilidades críticas, fortalecer competências locais e garantir que decisões estratégicas sobre infraestrutura, dados e serviços essenciais possam ser tomadas de acordo com os interesses nacionais. 

À medida que inteligência artificial, computação em nuvem, conectividade avançada e cibersegurança se tornam componentes centrais da economia, a soberania digital tende a ganhar ainda mais importância. Mais do que um conceito jurídico ou tecnológico, ela representa a busca por equilíbrio entre inovação, abertura internacional e autonomia decisória.

Para países como o Brasil, o desafio passa por desenvolver infraestrutura, formar profissionais, fortalecer a pesquisa científica, estimular a inovação e construir políticas públicas capazes de reduzir dependências estratégicas sem comprometer a integração à economia digital global. 



Matérias relacionadas

Servidores e racks de dados em um data center com luzes vermelhas de processamento, destacando infraestrutura de TI para alternativas ao Redata (redata). Inovação

Alternativas fiscais podem preservar parte dos efeitos do Redata

Com MP vencida e projeto ainda em tramitação no Senado, especialistas defendem uso de incentivos já existentes para evitar a paralisação de investimentos em data centers

Mulher sorridente usando blazer vermelho e olhando para tablet em ambiente de escritório ao lado de janela Inovação

CIO, CDO, CTO, CISO e CPO: 5 cargos da transformação digital

Os C-Levels ligados à transformação digital nas empresas ocupam posições fundamentais, mas com encargos diferentes. Conheça cada uma destas profissões

saúde digital Inovação

Saúde digital: entenda o conceito e os seus benefícios

O uso de recursos tecnológicos na área de saúde contribui para ampliar o acesso dos pacientes aos serviços médicos e melhorar a qualidade de vida

Técnico ajusta um maquinário quântico com componentes metálicos e cabos em um ambiente de pesquisa, com foco em tecnologia associada à IBM e computação quântica. Inovação

IBM investe US$ 10 bilhões e recebe subvenção para escalar plataformas quânticas

Companhia reforça seu roteiro até 2029 para liderar a comercialização de computadores quânticos tolerantes a falhas