Com o volume de transações digitais avançando ano após ano e serviços como Pix, Open Finance e inteligência artificial ampliando a complexidade dos ambientes tecnológicos, as instituições financeiras vêm concentrando esforços na modernização da infraestrutura que sustenta essa operação. O resultado foi um investimento de R$ 46,8 bilhões em 2025, com projeção de R$ 50,4 bilhões em 2026, como revela a 34ª Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária.
Segundo Rodrigo Mulinari, diretor responsável pelo estudo, os bancos mantêm uma trajetória consistente de expansão tecnológica. “O setor financeiro é o maior investidor privado em tecnologia. Em um recorte dos últimos 5 anos, vemos um aumento de 58% nos investimentos”, afirmou durante a apresentação da pesquisa.
Realizada pela Febraban em parceria com a Deloitte, a pesquisa reuniu informações de 25 instituições financeiras, responsáveis por cerca de 85% dos ativos bancários do país, além de entrevistas com 53 executivos do setor. Neste ano, o levantamento foi reorganizado em três grandes blocos: investimentos em tecnologia, estratégias de diferenciação e volumetria dos processos bancários.
Quando se observa a composição desses investimentos, percebe-se que a expansão ocorre tanto em novos projetos quanto na sustentação dos ambientes existentes. Os investimentos propriamente ditos passaram de R$ 14,8 bilhões para R$ 16,8 bilhões entre 2024 e 2025, enquanto as despesas destinadas à manutenção e evolução dos sistemas alcançaram R$ 30 bilhões.
Entre os temas que mais ganharam recursos estão inteligência artificial e modernização tecnológica. Os investimentos em IA cresceram 39%, passando de R$ 596 milhões para R$ 826 milhões. Já os aportes destinados à migração para cloud e modernização avançaram 30%, saltando de R$ 3 bilhões para R$ 3,9 bilhões.
Treinamentos transversais de tecnologia e cibersegurança
Outro indicador da transformação em curso é a preparação da força de trabalho. Em 2025, o setor treinou 226,1 mil profissionais em tecnologia e segurança cibernética. Hoje, 11% dos funcionários dos bancos atuam em áreas de tecnologia, e 42% das instituições pretendem ampliar esse contingente, com crescimento médio projetado de 22%.
Mulinari destaca que os programas de capacitação vão desde a disseminação de conhecimentos básicos até conteúdos voltados às estratégias de inovação e governança. “Praticamente metade de todo o quadro de bancários foi treinada no último ano, tanto em tecnologia quanto em cibersegurança. Isso reforça o posicionamento dos bancos de preparar essa mão de obra a ficar cada vez mais capacitada para exatamente usufruir dos investimentos em tecnologia”, argumentou.
Arquitetura como base das inovações
Embora inteligência artificial concentre grande parte da atenção do mercado, os números da pesquisa mostram que a maior parcela dos investimentos continua direcionada à infraestrutura que permitirá escalar essas iniciativas. Enquanto os aportes em IA chegaram a R$ 826 milhões em 2025, os investimentos em cloud e modernização somaram R$ 3,9 bilhões.
O levantamento mostra que cloud figura entre as prioridades de 84% dos bancos, mesmo percentual registrado para IA generativa. Além disso, 72% das instituições pretendem ampliar os investimentos em nuvem nos próximos anos.
“A nuvem facilita o acesso a novas tecnologias e integrações com o ecossistema. Há também as questões de eficiência operacional e escalabilidade para casos de uso como o Pix, com altos volumes e operação 24×7”, enumera Mulinari.
Segundo Sérgio Biagini, sócio de Serviços Financeiros da Deloitte, o avanço da cloud está diretamente ligado à necessidade de absorver o crescimento da demanda por serviços digitais e acelerar a incorporação de novas tecnologias. O analista explicou que os serviços tecnológicos mais avançados são disponibilizados cada vez mais em plataformas de nuvem, tornando a modernização uma condição necessária para acelerar a inovação. Ao mesmo tempo, o movimento responde à escalada do volume transacional do sistema financeiro.
“Há um crescimento bastante grande no volume transacional em canais digitais. Isso requer um investimento, um incremento nessas nossas infraestruturas que suportam todos esses serviços”, observou.
Segurança sistêmica
A pesquisa mostra que a cibersegurança é prioridade para 100% dos bancos participantes, liderando o ranking de investimentos tecnológicos. Cloud e IA generativa aparecem logo atrás, ambas citadas por 84% das instituições.
Tradicionalmente, cerca de 10% do orçamento de tecnologia é destinado à segurança, prevenção a fraudes e combate a golpes. Considerando a projeção de R$ 50,4 bilhões para 2026, isso representa aproximadamente R$ 5 bilhões investidos nessas frentes.
Para Ivo Mósca, diretor executivo de Inovação, Produtos e Segurança da Febraban, a relevância do tema está ligada tanto à evolução constante das ameaças quanto à digitalização dos agentes econômicos. “Os bancos hoje são as fontes dos recursos financeiros e não o canal de entrada de golpes e fraudes”, ponderou
Segundo o executivo, telefonia, redes sociais, internet e plataformas de comércio eletrônico estão entre os principais vetores utilizados pelos criminosos para atingir consumidores e empresas. Nesse contexto, os investimentos em proteção ultrapassam os limites das instituições financeiras. “As instituições financeiras já usam o que há de melhor em nível de tecnologia mundial para garantir segurança. Esse volume de investimento hoje, na verdade, é para proteger todos os recursos que passam por nosso sistema financeiro”, esclareceu.
Pix acelera crescimento, mas cartões preservam espaço
Em 2025, o sistema financeiro registrou 240,8 bilhões de transações, alta de 11% em relação ao ano anterior.
O mobile banking consolidou-se como principal canal de relacionamento com os clientes, respondendo por 78% de todas as transações bancárias. Atualmente, 76% dos usuários já são considerados heavy users dos canais digitais, realizando pelo menos 80% de suas operações nesses ambientes.
O Pix continua sendo o principal motor desse crescimento. Nas maquininhas de pagamento, as operações via Pix avançaram 54% em 2025. No mesmo período, as transações com cartão de crédito cresceram 8%, enquanto as de débito recuaram 4%.
Segundo Biagini, o avanço do Pix afeta principalmente o débito, mas não elimina a relevância dos cartões no sistema de pagamentos. O executivo observou que o crédito continua associado a atributos como parcelamento, programas de benefícios e integração com o comércio eletrônico, enquanto o Pix vem capturando uma parcela crescente das operações de pagamento à vista.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a experiência de uso dos cartões continua evoluindo. Os pagamentos por aproximação já superam as transações realizadas por inserção física tanto no débito quanto no crédito, reforçando a conveniência do meio de pagamento mesmo em um ambiente de forte expansão das alternativas digitais.
O Pix e os cartões embarcados em carteiras digitais, evidentemente, capturam parte das transações de débito, sem uso do “plástico”. Para Sérgio Biagini, o movimento não significa necessariamente uma rejeição ao cartão físico, mas uma migração para formatos considerados mais convenientes.
Ivo Mósca destacou que o uso do cartão de débito por aproximação superou o uso por inserção, o que já acontecia com o cartão de crédito. Segundo o executivo, a atualização da base de cartões de múltiplos e de débito (para pagamento por aproximação) dá simplicidade à operação, em uma experiência em que o cliente se sente seguro.
Outro indicador da mudança no comportamento dos clientes aparece na utilização da rede de caixas eletrônicos. A pesquisa mostra que os saques continuam em trajetória de queda, acompanhando a digitalização dos serviços bancários. Questionados sobre o futuro da infraestrutura de ATMs, os executivos afirmaram que a rede permanece relevante, especialmente para atendimento de públicos específicos e regiões onde o dinheiro em espécie ainda tem papel importante, mas tende a operar com volumes cada vez menores.
Segundo Rodrigo Mulinari, a transformação não implica necessariamente a eliminação dos caixas eletrônicos, mas uma adaptação gradual à nova dinâmica do mercado. À medida que transferências, pagamentos, consultas e outras operações migram para os canais digitais, os ATMs deixam de ser um ponto central de relacionamento e passam a cumprir funções mais específicas dentro da estratégia de atendimento das instituições financeiras.
Diferenciação passa por experiência, confiança e personalização
Se a modernização tecnológica forma a base da transformação do setor bancário, a experiência do cliente aparece como o principal objetivo dos investimentos.
Segundo a pesquisa, 80% dos bancos apontam a experiência do cliente como principal estratégia de diferenciação competitiva, impulsionada pelo uso crescente de inteligência artificial e IA generativa.
“A experiência do cliente lidera a diferenciação entre os bancos e com uso massivo de inteligência artificial e inteligência artificial generativa nesse processo”, afirmou Mulinari.
Na prática, a aplicação dessas tecnologias já começa a produzir resultados mensuráveis. A parcela de bancos que reporta ganhos elevados de eficiência em atendimento ao cliente passou de 5% para 19% em apenas um ano.
Outro pilar estratégico é a segurança e privacidade, apontada por 80% das instituições. Para os bancos, proteção deixou de ser apenas um requisito operacional para se tornar elemento de diferenciação e construção de confiança.
A inovação tecnológica aparece logo em seguida, citada por 72% dos participantes. Segundo Mulinari, esse posicionamento reflete uma trajetória histórica do setor financeiro brasileiro.
O estudo mostra ainda que os bancos buscam ampliar a personalização de produtos e serviços por meio do uso de dados, inteligência artificial e Open Finance. Mais da metade das instituições espera extrair alto valor das iniciativas abertas de compartilhamento de dados, ampliando a capacidade de oferecer produtos mais aderentes às necessidades dos clientes.
