A maturação de tecnologias como inteligência artificial, IoT e computação quântica amplia as possibilidades de aplicação na saúde e reforça o potencial de ganhos em eficiência e segurança na jornada do paciente. No entanto, mais do que investir apenas nas soluções tecnológicas, o segmento deve enxergar a conectividade como instrumento habilitador e vital para sustentar a segurança sistêmica necessária à digitalização da saúde. Para a diretora da Claro empresas, Ana Claudia Ferraz, a “conectividade deixa de ser uma infraestrutura básica e passa a ser o principal ator para o cuidado com a saúde”.
A avaliação foi feita durante o episódio “Como a conectividade impacta a saúde?”, do podcast Próximo Nível, da Claro empresas. Participaram da conversa o vice-presidente de TI do Grupo Fleury, João Alvarenga, o Chief Digital Transformation Officer do Hospital Israelita Einstein, Igohr Schultz, e a futurista Daniela Klaiman. O debate abordou como conectividade, inteligência artificial e integração de dados estão modificando o setor ao viabilizar uma lógica de atendimento mais preditiva, integrada e personalizada.
Dados integrados ampliam precisão e personalização

Dentre os principais impactos da transformação digital na saúde, a capacidade de integrar informações que historicamente permaneciam isoladas entre hospitais, clínicas e laboratórios foi debatida como reflexo da interoperabilidade de dados. A implementação dessa arquitetura integrada permite que instituições construam uma visão menos fragmentada sobre a jornada do paciente.
Alvarenga destacou que a combinação entre interoperabilidade e inteligência artificial permite consolidar históricos clínicos isolados em uma espécie de prontuário único de saúde. Segundo o VP de TI, a unificação possibilita a extração de insights mais valiosos que orientam diagnósticos, ações preditivas e tratamentos personalizados.
Para Schultz, o estudo e a incorporação de tecnologias no setor não é algo recente, como mostra, por exemplo, o investimento do Einstein em big data e analytics há mais de uma década. Atualmente, a rede já utiliza mais de 130 algoritmos de IA em áreas que vão desde diagnóstico até gestão hospitalar. O executivo afirmou que o conceito utilizado internamente é o de “inteligência aumentada”, uma vez que a tecnologia amplia a capacidade de profissionais em tomar as melhores decisões.
Entre os exemplos citados, estão sistemas capazes de monitorar pacientes em tempo real por meio de mais de 80 indicadores clínicos simultaneamente, identificando desde atrasos na administração de medicamentos até alterações em pacientes internados.
IA exige supervisão humana e governança
Apesar do potencial transformador, os participantes reforçaram que a adoção de inteligência artificial na saúde exige cautela. Diferentemente de outros segmentos, pequenas margens de erro podem representar riscos concretos à vida humana.
Alvarenga ressaltou que modelos automatizados precisam operar com supervisão constante do corpo clínico. Segundo ele, produtividade e automação não podem ser dissociadas da responsabilidade sobre a qualidade do diagnóstico e da segurança do paciente.
“Em qualquer outro tipo de vertical de indústria, um modelo analítico que acerte 99,99% das vezes já é considerado altamente eficiente. Já na saúde, o 0,01% são vidas. Então requer parcimônia, responsabilidade, pragmatismo e disciplina muito grande. A IA auxilia, mas deve ser sempre supervisionada, porque automação por automação não adianta de nada”, enfatizou Alvarenga.
Os executivos também enfatizaram a importância da governança de dados, da conformidade regulatória e da rastreabilidade das informações utilizadas pelos modelos de IA. Entre os pontos discutidos estiveram a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), regulações internacionais e o debate em torno do projeto de lei que trata da regulamentação da inteligência artificial no Brasil (PL 2.338/2023).
No Einstein, por exemplo, dados compartilhados em redes globais de pesquisa são anonimizados e certificados antes de serem utilizados. Como mecanismos de proteção, Alvarenga destacou ainda a importância de criar ambientes controlados para o uso corporativo de IA, reduzindo riscos relacionados ao chamado “shadow AI”, quando ferramentas são utilizadas sem governança institucional.
Conectividade é mais que infraestrutura básica

Ana Claudia Ferraz destacou que o avanço da saúde digital depende diretamente do fortalecimento da conectividade como elemento central para o cuidado da saúde. Tecnologia 5G, redes privativas e soluções em nuvem permitem conectar hospitais, clínicas, profissionais e pacientes em tempo real, independentemente da localização geográfica.
Essa disponibilidade viabiliza aplicações como monitoramento remoto de pacientes, atendimento médico a distância, troca segura de exames e até cirurgias assistidas. Em um país de dimensões continentais e marcado pela concentração de especialistas em determinadas regiões, a infraestrutura digital também surge como ferramenta de democratização do acesso à saúde.
Nessas e em outras aplicações da tecnologia, é preciso garantir a resiliência sistêmica. Schultz observou que a operação plena e contínua dos sistemas passou a fazer parte da própria segurança do paciente. Isso faz com que hospitais estudem mecanismos de redundância mais avançados, com 5G para sustentar failovers e conexões via satélite para evitar interrupções operacionais.
Futuro da saúde
Em uma perspectiva de futuro, a futurista Daniela Klaiman citou conceitos como “AI Hospitals”, com hospitais operados por inteligência artificial integrada ponta a ponta, e “Open Health”, modelo baseado na integração de dados clínicos entre diferentes instituições.
Outra tendência apontada foi o “remote follow-up”, em que sensores, dispositivos conectados e IoT permitem acompanhar pacientes continuamente fora do ambiente hospitalar, com ajustes remotos em tratamentos e respostas mais rápidas.
Nesse sentido, a transformação digital da saúde não se resume à adoção de novas ferramentas. Ela depende da construção de uma infraestrutura conectada, segura e resiliente capaz de sustentar uma medicina mais eficiente, integrada e personalizada.
