Homem de terno usando smartphone com um mapa mundial digital em tons de vermelho ao fundo, representando riscos digitais e inteligência artificial nas empresas Imagem gerada digitalmente

Entre integração e fragmentação: riscos digitais lideram litígios globais em 2026

3 minutos de leitura

Relatório da Baker McKenzie aponta tecnologia e dados como principal vetor de litígios e executivos brasileiros reforçam preocupações com IA, privacidade e segurança em cenário de pressão regulatória e geopolítica



Por Redação em 16/04/2026

A economia global vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que empresas estão cada vez mais conectadas, a integração enfrenta barreiras cada vez mais duras, como protecionismo, tensões geopolíticas e regras mais rígidas de soberania de dados. O resultado é um ambiente em que fluxos digitais, em vez de funcionar apenas como fator de eficiência, passam a concentrar riscos jurídicos, operacionais e reputacionais.

Esse é o eixo do estudo Global Disputes Forecast 2026, da Baker McKenzie, que identifica uma convergência entre transformação digital e instabilidade global como motor das disputas corporativas. No relatório, riscos inerentes à digitalização, como cibersegurança, privacidade e uso de inteligência artificial, se combinam a turbulências socioeconômicas e políticas, ampliando a exposição das empresas a litígios e investigações.

A partir dos dados globais, uma reportagem do Valor Econômico destaca o recorte brasileiro do estudo e mostra como essa percepção é compartilhada por executivos locais, que acompanham a tendência global com ênfase nos impactos regulatórios e no aumento das ameaças digitais.

Tecnologia e dados no centro das disputas

Mulher com cabelo rosa trabalhando com segurança de dados e tecnologia digital em um laptop, representando proteção de informações no ambiente digital.
Imagem gerada digitalmente

O levantamento, baseado em entrevistas com 600 executivos jurídicos de grandes empresas, indica que 80% dos entrevistados apontam riscos relacionados a tecnologia e gestão de dados como principal fator de exposição a disputas.

Esse grupo engloba desde ataques cibernéticos até a crescente complexidade das regras de privacidade e uso de dados, um cenário agravado pela rápida adoção de inteligência artificial.

O relatório destaca que a combinação entre expansão da IA, sofisticação das ameaças cibernéticas e multiplicidade de legislações de proteção de dados transformou os riscos digitais no principal vetor de conflitos em 2026. Os incidentes tecnológicos deixam de ser apenas operacionais e passam a ter desdobramentos jurídicos diretos, com potencial de gerar multas, sanções e ações judiciais em múltiplas jurisdições.

Segundo o Valor, há expectativa clara de aumento de disputas envolvendo inteligência artificial, tanto por questões de responsabilidade quanto por uso indevido ou vieses algorítmicos. “Empresas esperam litígios sobre IA”, destaca o jornal.

Soberania de dados e pressão regulatória

Um dos pontos centrais do relatório é o avanço de legislações que reforçam a soberania digital. Países têm criado regras que exigem armazenamento local de dados, restrições a transferências internacionais e obrigações de notificações rápidas de incidentes cibernéticos.

Segundo os analistas da Baker McKenzie, esse movimento, associado a preocupações de segurança nacional, afeta diretamente empresas de tecnologia e telecomunicações, que operam com infraestruturas distribuídas e fluxos globais de dados. O descumprimento dessas regras pode resultar não apenas em sanções administrativas, mas também em responsabilidade civil e criminal.

A reportagem do Valor ressalta que, no Brasil, o tema ganha relevância adicional com o amadurecimento da legislação de proteção de dados e o aumento da fiscalização, ampliando o risco de judicialização.

Cibersegurança, reputação e sustentabilidade

Foto: MeshCube/ Shutterstock/ Modificada com IA

Além das obrigações legais, o relatório chama atenção para o efeito reputacional dos incidentes digitais. Ataques cibernéticos e falhas na gestão de dados não apenas geram perdas financeiras, mas também impactam a confiança de clientes, investidores e parceiros.

Esse movimento conecta a agenda de tecnologia a temas de ESG, especialmente no que diz respeito à governança e à responsabilidade corporativa. Disputas relacionadas a dados passam, assim, a integrar o debate sobre sustentabilidade empresarial.

No levantamento, cibersegurança e privacidade aparecem como o principal risco tanto em disputas quanto em investigações, reforçando sua centralidade no ambiente corporativo atual.

IA amplia perímetro de riscos

A adoção acelerada de inteligência artificial passa a operar como um divisor de águas. Se, por um lado, a tecnologia promete ganhos de eficiência e automação, por outro introduz incertezas jurídicas ainda em consolidação.

Entre os principais pontos de atenção estão responsabilidade por decisões automatizadas; vieses e discriminação algorítmica, uso indevido de dados e a transparência e governança dos modelos. Esses fatores tendem a gerar não apenas disputas privadas, mas também investigações regulatórias, muitas vezes em múltiplos países simultaneamente.

Investigações transfronteiriças e complexidade operacional

O relatório também indica que 82% das organizações temem ser alvo de investigações transfronteiriças ou conduzidas por múltiplas autoridades.

Nesse contexto, a gestão de dados se torna ainda mais crítica. A necessidade de preservar, acessar e compartilhar informações entre jurisdições diferentes cria desafios técnicos e jurídicos significativos, especialmente quando há conflito entre legislações locais.

Os autores do relatório alertam que a ausência de governança de dados estruturada pode dificultar a identificação e preservação de evidências, aumentando custos e riscos em processos judiciais e administrativos.

Governança e preparação ainda insuficientes

Apesar do alto nível de consciência sobre os riscos, o relatório aponta um descompasso entre percepção e preparo. Cerca de quatro em cada dez empresas admitem que seus orçamentos para disputas são insuficientes diante das demandas esperadas.

Entre as principais fragilidades estão dificuldade de acompanhar mudanças regulatórias; estruturas internas fragmentadas; e limitações na coordenação entre áreas e países.

A recomendação central do documento é tratar a preparação para disputas como investimento estratégico, especialmente em um cenário em que incidentes digitais podem escalar rapidamente e ganhar dimensão global.



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