A economia global vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que empresas estão cada vez mais conectadas, a integração enfrenta barreiras cada vez mais duras, como protecionismo, tensões geopolíticas e regras mais rígidas de soberania de dados. O resultado é um ambiente em que fluxos digitais, em vez de funcionar apenas como fator de eficiência, passam a concentrar riscos jurídicos, operacionais e reputacionais.
Esse é o eixo do estudo Global Disputes Forecast 2026, da Baker McKenzie, que identifica uma convergência entre transformação digital e instabilidade global como motor das disputas corporativas. No relatório, riscos inerentes à digitalização, como cibersegurança, privacidade e uso de inteligência artificial, se combinam a turbulências socioeconômicas e políticas, ampliando a exposição das empresas a litígios e investigações.
A partir dos dados globais, uma reportagem do Valor Econômico destaca o recorte brasileiro do estudo e mostra como essa percepção é compartilhada por executivos locais, que acompanham a tendência global com ênfase nos impactos regulatórios e no aumento das ameaças digitais.
Tecnologia e dados no centro das disputas

O levantamento, baseado em entrevistas com 600 executivos jurídicos de grandes empresas, indica que 80% dos entrevistados apontam riscos relacionados a tecnologia e gestão de dados como principal fator de exposição a disputas.
Esse grupo engloba desde ataques cibernéticos até a crescente complexidade das regras de privacidade e uso de dados, um cenário agravado pela rápida adoção de inteligência artificial.
O relatório destaca que a combinação entre expansão da IA, sofisticação das ameaças cibernéticas e multiplicidade de legislações de proteção de dados transformou os riscos digitais no principal vetor de conflitos em 2026. Os incidentes tecnológicos deixam de ser apenas operacionais e passam a ter desdobramentos jurídicos diretos, com potencial de gerar multas, sanções e ações judiciais em múltiplas jurisdições.
Segundo o Valor, há expectativa clara de aumento de disputas envolvendo inteligência artificial, tanto por questões de responsabilidade quanto por uso indevido ou vieses algorítmicos. “Empresas esperam litígios sobre IA”, destaca o jornal.
Soberania de dados e pressão regulatória
Um dos pontos centrais do relatório é o avanço de legislações que reforçam a soberania digital. Países têm criado regras que exigem armazenamento local de dados, restrições a transferências internacionais e obrigações de notificações rápidas de incidentes cibernéticos.
Segundo os analistas da Baker McKenzie, esse movimento, associado a preocupações de segurança nacional, afeta diretamente empresas de tecnologia e telecomunicações, que operam com infraestruturas distribuídas e fluxos globais de dados. O descumprimento dessas regras pode resultar não apenas em sanções administrativas, mas também em responsabilidade civil e criminal.
A reportagem do Valor ressalta que, no Brasil, o tema ganha relevância adicional com o amadurecimento da legislação de proteção de dados e o aumento da fiscalização, ampliando o risco de judicialização.
Cibersegurança, reputação e sustentabilidade

Além das obrigações legais, o relatório chama atenção para o efeito reputacional dos incidentes digitais. Ataques cibernéticos e falhas na gestão de dados não apenas geram perdas financeiras, mas também impactam a confiança de clientes, investidores e parceiros.
Esse movimento conecta a agenda de tecnologia a temas de ESG, especialmente no que diz respeito à governança e à responsabilidade corporativa. Disputas relacionadas a dados passam, assim, a integrar o debate sobre sustentabilidade empresarial.
No levantamento, cibersegurança e privacidade aparecem como o principal risco tanto em disputas quanto em investigações, reforçando sua centralidade no ambiente corporativo atual.
IA amplia perímetro de riscos
A adoção acelerada de inteligência artificial passa a operar como um divisor de águas. Se, por um lado, a tecnologia promete ganhos de eficiência e automação, por outro introduz incertezas jurídicas ainda em consolidação.
Entre os principais pontos de atenção estão responsabilidade por decisões automatizadas; vieses e discriminação algorítmica, uso indevido de dados e a transparência e governança dos modelos. Esses fatores tendem a gerar não apenas disputas privadas, mas também investigações regulatórias, muitas vezes em múltiplos países simultaneamente.
Investigações transfronteiriças e complexidade operacional
O relatório também indica que 82% das organizações temem ser alvo de investigações transfronteiriças ou conduzidas por múltiplas autoridades.
Nesse contexto, a gestão de dados se torna ainda mais crítica. A necessidade de preservar, acessar e compartilhar informações entre jurisdições diferentes cria desafios técnicos e jurídicos significativos, especialmente quando há conflito entre legislações locais.
Os autores do relatório alertam que a ausência de governança de dados estruturada pode dificultar a identificação e preservação de evidências, aumentando custos e riscos em processos judiciais e administrativos.
Governança e preparação ainda insuficientes
Apesar do alto nível de consciência sobre os riscos, o relatório aponta um descompasso entre percepção e preparo. Cerca de quatro em cada dez empresas admitem que seus orçamentos para disputas são insuficientes diante das demandas esperadas.
Entre as principais fragilidades estão dificuldade de acompanhar mudanças regulatórias; estruturas internas fragmentadas; e limitações na coordenação entre áreas e países.
A recomendação central do documento é tratar a preparação para disputas como investimento estratégico, especialmente em um cenário em que incidentes digitais podem escalar rapidamente e ganhar dimensão global.
