Os eVTOLs (aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical) deixam, aos poucos, de ser apenas uma promessa futurista para se consolidar nas estratégias do setor de aviação nas grandes metrópoles. Com autonomia média de aproximadamente 100 quilômetros e capacidade para transportar de quatro a seis passageiros, esses veículos integram o conceito de mobilidade aérea avançada (AAM) e já articulam as esferas público e privada.
No Brasil, o avanço do setor combina inovação tecnológica, articulação regulatória e o uso estratégico de dados para viabilizar a implantação de uma rede operacional eficiente e escalável. Nesse sentido, enquanto empresas se mobilizam para a produção de protótipos para certificação junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), outras do setor estudam a viabilidade comercial dos primeiros vertiportos.
A PAX Aeroportos, em parceria com UrbanV, por exemplo, utilizou a plataforma de inteligência de dados Claro geodata para analisar o deslocamento de oito bilhões de conexões de telefonia e, assim, identificar os dez principais pontos de demanda em São Paulo.
O que são os eVTOLs e por que ganham relevância
Como os eVTOLs decolam e pousam verticalmente, sem necessidade de pistas tradicionais, podem operar em áreas urbanas densas, desde que haja infraestrutura adequada, como vertiportos. São descritos pela Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA como aeronaves de AAM, “altamente automatizadas, movidas a eletricidade e que possuem capacidade de decolagem e pouso vertical”.
Além da proposta de reduzir o tempo de deslocamento em grandes cidades, a tecnologia também surge como alternativa mais sustentável em relação a helicópteros movidos a querosene ou gasolina de aviação. De maneira resumida, essas aeronaves se diferenciam dos helicópteros por serem mais silenciosos e emitirem menos poluentes, por utilizarem mais rotores (menores que os dos helicópteros) e terem como foco viagens de curta distância.
De acordo com a consultoria MarketsandMarkets, o segmento, atualmente avaliado em cerca de US$ 1,79 bilhão, deve saltar para US$ 5,08 bilhões em 2035.
Inteligência de dados como base para a nova infraestrutura
Entre os desafios para a consolidação dos eVTOLs no Brasil está a definição de onde e como implantar a infraestrutura necessária. Nesse contexto, plataformas de inteligência de dados vêm sendo usadas para que as empresas tenham maior precisão nas tomadas de decisão.
É o caso da PAX Aeroportos, responsável pela operação e infraestrutura dos aeroportos do Campo de Marte (SP) e de Jacarepaguá (RJ), que, a partir de bilhões de conexões de celulares registradas pelo Claro geodata, consegue extrair valor para o planejamento da operação. Segundo o head comercial de data analytics na Claro empresas, João Del Nero, em entrevista publicada no Valor Econômico, a capilaridade do celular fornece dados que ajudam a formar soluções para a mobilidade urbana, entendendo o fluxo, horários de pico e direção com uma assertividade superior a 95%.
“Os números que entregamos são atualizados e previamente filtrados, de acordo com as demandas do projeto. A partir de uma base customizável de dados qualificados, a PAX pôde trabalhar no desenho de seu modelo de negócios para os eVTOLs”, explicou Del Nero.
Por meio de dados anonimizados e técnicas de machine learning, a plataforma auxiliou a mapear dez pontos da Grande São Paulo e arredores. A posição do Campo de Marte foi considerada, pela PAX, como estratégica para conectar áreas de demanda elevada como a Avenida Faria Lima, Alphaville, Campinas, Baixada Santista e principais aeroportos da região.
O CEO da PAX, Rogério Augusto Prado, entende os dados como o ponto de partida, uma vez que “tornam a proposta comercial concreta, reduzem os riscos e facilitam a captação de investimentos, com base em modelos de inteligência urbana”.
Estágio do eVTOL no Brasil

Paralelamente à pesquisa feita pela PAX, o Brasil movimenta diversas frentes no âmbito regulatório, diplomático e tecnológico. Em fevereiro de 2026, a Anac e o Departamento de Aviação Civil do Japão (JCAB) assinaram uma Carta de Intenções sobre mobilidade aérea avançada que trata da troca de experiências, conhecimentos e informações com o intuito de “fomentar um ambiente regulatório harmonizado e voltado para o futuro, que apoie a entrada em operação segura e oportuna de aeronaves de AAM, em particular as aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical”.
Outro passo, dentro da atuação governamental, foi a consulta pública aberta sobre regras de licenciamento de pilotos diante da inserção de novos tipos de aeronaves. A proposta prevê uma emenda ao Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 61, incorporando treinamento específico para aeronaves com capacidade de decolagem vertical. O modelo inicial sugerido pela Anac contempla a transição de pilotos já habilitados em aviões ou helicópteros, permitindo acumular “experiência operacional e evidências regulatórias” antes da criação de uma formação totalmente dedicada aos eVTOLs.
No campo tecnológico, o Brasil se encontra na fase de testes práticos. O protótipo de eVTOL desenvolvido pela subsidiária da Embraer, Eve Air Mobility, já realizou 50 voos experimentais, acumula mais de duas horas de operação e valida aspectos como estabilidade, controle e gestão de energia. A expectativa é que a produção dos seis protótipos de conformidade comece até o final de 2026.
