A ideia de substituir um mar de e-mails e reuniões pouco produtivas no início da semana por um relatório das atividades otimizadas por sistemas de inteligência artificial pode soar idealista, mas descreve o horizonte traçado pelo novo estudo Megatrends, da EY. No centro da análise está o conceito de “superfluid enterprise”, um modelo organizacional capaz de operar com atrito mínimo, por meio da automação no tratamento de dados, decisões, capital e talento. Com essa nova organização, na qual o papel do profissional se concentra em orientações estratégicas, delimitações éticas e coordenação de parceiros em sistemas integrados, o mundo corporativo caminha para um formato híbrido, combinando capacidades humanas e sistemas autônomos de IA.
Nas empresas superfluidas a operação contínua é baseada em tecnologias como agentes autônomos, contratos inteligentes e gêmeos digitais para eliminar silos, diminuir custos e acelerar processos. Apesar da justificativa econômica já existir, apenas recentemente que os avanços tecnológicos passaram a viabilizar essa transformação em maior escala. Por isso, o estudo afirma que as empresas que desejam liderar essa reorganização e adquirir uma vantagem competitiva, devem adotar a superfluidez.
O custo da fricção e a urgência da automação inteligente
Por décadas, empresas foram desenhadas para administrar fricções que vão desde alinhamentos intermináveis, aprovações manuais, redundâncias e silos de informação que drenam tempo e recursos. A pesquisa quantifica essa ineficiência: a falta de engajamento custa US$ 8,8 trilhões à economia global; organizações perdem cerca de US$ 15 mil por funcionário ao ano em atritos internos; a incivilidade corporativa representa perdas de US$ 2,1 bilhões diários apenas nos Estados Unidos; e silos de dados podem corroer até 30% da receita das companhias.
A automação baseada em IA e governança de contratos inteligentes já apresenta impactos comerciais positivos. De acordo com a EY, as organizações demonstram um retorno sobre o investimento (ROI) de duas a três vezes maior em iniciativas de IA, além de uma redução de custos de até 50% e diminuição do cycle time em até 70%.
Caminho para a superfluidez
A transição não ocorre de forma súbita e demanda uma implementação gradativa que envolve três estágios: (1) construção da fundação, (2) coordenação autônoma e (3) superfluidez total. A partir dessas etapas, a operação das atividades empresariais ganha uma base sólida em níveis tecnológicos e, então, pode se tornar mais otimizada e produtiva.
Construção da fundação
O primeiro estágio é focado na “construção de infraestrutura, na realização de projetos-piloto de contratos inteligentes e no aprimoramento das habilidades de colaboração entre humanos e IA”. Nesse momento inicial, a meta é alcançar 70% de uso interno de ferramentas baseadas em IA, reduzir em 30% o tempo dos ciclos de processo e alcançar um ROI superior a 150% em programas piloto.
Atualmente, 78% das organizações globais já usam IA em funções estratégicas, e 71% adotam IA generativa de forma recorrente, o que acelera a transição.
Coordenação autônoma
No segundo estágio, a IA deixa de apenas auxiliar para coordenar, ou seja, o modelo passa de “humanos no loop” para “humanos sobre o loop”. Assim, com maior autonomia para as ferramentas tecnológicas, as metas dessa fase envolvem respostas 50% mais rápidas às mudanças de mercados, tomadas de decisão autônomas em 80% e ROI superior a 200%.
Para ilustrar o potencial dessa etapa, o estudo cita um caso em que a IA solucionou 15 problemas operacionais, ajustou o cronograma em razão de atrasos do fornecedor e negociou preços através de licitação automatizada com contratos inteligentes.
Superfluidez total
No estágio final, as empresas operam com mais de 90% de autonomia, dedicando aos humanos apenas funções relativas à visão estratégica, criatividade e ética. Após aprender a colaborar com a IA (fase 1) e coordená-la (fase 2), o profissional assume uma posição visionária e estratégica, garantindo que “as operações autônomas sirvam a propósitos humanos”.
