Apesar de ser um marco de disrupção de mercado e da transformação digital, em uma retrospectiva do advento dos smartphones podem ser encontradas sinalizações do que estaria por vir nos dispositivos pessoais (mesmo que alguns líderes desavisados não tenham entendido que produtos como o iPod testavam esse futuro mercado). Contudo, a convergência da mobilidade com outros impulsionadores tecnológicos, como nuvem, GPS, dados, algoritmos de plataformas sociais, ou ecossistemas de APIs, continua a trazer desdobramentos que tornam até o passado surpreendente. Fragilidades e ineficiências que pareciam inexoráveis rapidamente se tornaram definitivamente anacrônicas. Mais do que fazer melhor, o jogo se define pelo que nunca foi feito.
No artigo Ruptura sistêmica e inteligência estratégica – a emergência dos cisnes vermelhos, o cientista-chefe da TDS.company e professor da UFPE e FGV, Sílvio Meira, analisa as transformações “cuja irrupção desafia não apenas modelos estatísticos e mecanismos de previsão tradicionais, mas a própria racionalidade cognitiva e institucional que estrutura a ação estratégica”. Em um desdobramento do conceito de cisne negro, caracterizado pelo matemático e analista de risco Nassim Taleb pela baixa previsibilidade e alto impacto, Meira define o “cisne vermelho” como movimentos hiperconectados, nos quais as correlações e impactos têm uma complexidade que tornam os métodos preditivos inócuos.
Em entrevista ao podcast Próximo Nível, Meira resume o desafio de lidar com os cisnes negros com um jogo de conjugações do mesmo verbo. “Os cisnes negros são um erro de previsão estatística. Você tem os dados ali, eles estão lá na cauda longa e você diz que isso não vai acontecer. Se acontecer, vai ser um Deus nos acuda, mas não acontecerá. Aí, de repente, acontece. A gente teve outro desses cisnes negros na pandemia de Covid-19. Era um evento de baixíssima probabilidade, mas, se acontecesse, aconteceria o que aconteceu”, diz o professor. “Os cisnes vermelhos são uma ruptura com esse conceito. Para começar, epistemologicamente desorientadores; nós não temos conhecimento suficiente antes deles acontecerem para entender quais são os impactos que eles vão causar quando acontecerem”, explica.
Mais do que indicar um esgotamento dos modelos estatísticos ou das ferramentas de análises, Meira enfatiza a insuficiência das próprias expectativas e premissas. O cientista menciona a definição de Ziauddin Sardar e sumariza as quatro condições simultâneas que caracterizam os tempos pós-normais: fatos incertos, valores em disputa, riscos elevados e decisões urgentes.
“O pós-normal não apenas favorece a emergência de cisnes vermelhos, mas torna sua compreensão epistêmica e estratégica inadiável”, diz o professor.
Quebrando paradigmas
O conceito do cisne vermelho descreve rupturas que não apenas surpreendem, mas deslocam a capacidade de leitura dos próprios sistemas. São eventos que colocam em xeque o que organizações consideram plausível, esperado ou controlável. A dinâmica hiperconectada atual faz com que mudanças em um ponto desencadeiem reações aceleradas em vários outros. Essas respostas tendem a ocorrer simultaneamente e, muitas vezes, de forma definitiva, obrigando empresas a abandonarem a lógica de “voltar ao normal”.
Outro elemento central destacado pelo autor é a dificuldade de perceber sinais fracos quando o enquadramento mental dominante não permite reconhecê-los como indícios de transformação. Nesse sentido, o cisne vermelho não é invisível por ausência de informação, mas por incompatibilidade entre o fenômeno emergente e os modelos usados para interpretá-lo.
Hiperconexão como motor e amplificador de rupturas
Sílvio Meira destaca que os efeitos interconectados são a marca mais evidente da transição para a pós-normalidade. A interdependência crescente entre mercados, tecnologias e cadeias de valor faz com que eventos que antes seriam setoriais passem a ganhar alcance sistêmico. A resiliência, portanto, deixa de ser entendida como capacidade de absorção de choques isolados e passa a exigir habilidade de reorganização diante de perturbações que se espalham de forma transversal.
A partir dessas premissas, Meira aprofunda discussões sobre a fragilidade estrutural dos mercados lentos, a transição para arquiteturas figitais modulares e o papel da inteligência artificial na formulação de cenários.
Ao sistematizar as características do cisne vermelho, Meira propõe uma leitura que ajuda a compreender por que certas rupturas ganham tração tão rapidamente. A hiperconectividade traz correlações inesperadas entre sistemas aparentemente distintos. A simultaneidade das mudanças cria pressão em múltiplas frentes. A irreversibilidade impede respostas que tentem restaurar condições anteriores. E a dificuldade de reconhecer anomalias se dá menos pela ausência de sinais e mais pela inadequação das categorias usadas para observá-los.
O desafio central não está apenas na velocidade das mudanças, mas na natureza das interdependências que as sustentam. Por isso, a resposta estratégica precisa ir além do reforço de mecanismos tradicionais de previsão ou controle.
Reequilíbrio estratégico
A análise apresentada por Meira aponta a necessidade de reequilibrar abordagens. De um lado, a crescente capacidade de interconexão — viabilizada pela composição dinâmica de cadeias de valor, pela infraestrutura em nuvem, pela expansão das soluções as a Service e pela formação de ecossistemas de parceria — cria novas possibilidades de resiliência. Estruturas mais flexíveis, distribuídas e recombináveis ajudam as organizações a responder de forma criativa a cenários de disrupção.
Em contrapartida, esse mesmo modelo expande a vulnerabilidade sistêmica. Sistemas fortemente integrados ficam mais sujeitos a efeitos em cascata, falhas simultâneas e impactos que extrapolam o domínio onde se originam. A potência da interconexão, portanto, vem acompanhada de um aumento proporcional na exposição a eventos de grande amplitude.
O desafio estratégico, como sugere Meira, não está em privilegiar integração ou isolamento, mas em combinar ambos com intencionalidade. Estruturas conectadas precisam ser também modulares; ecossistemas amplos exigem governança capaz de limitar vulnerabilidades; arquiteturas densas dependem da capacidade de se recompor rapidamente diante de rupturas.
É nesse ponto de equilíbrio, entre a robustez proporcionada pela interconexão e a proteção necessária diante de fenômenos de impacto sistêmico, que as organizações poderão operar com mais segurança e criatividade em um ambiente dominado pela lógica dos cisnes vermelhos.
