A inteligência artificial na indústria de telecomunicações avança para um novo patamar. De aplicações gerais, como atendimento ou analytics, a tecnologia passa a ocupar o “chão de fábrica” das redes, sustentando automação avançada, AIOps (operações suportadas por IA), configurações baseadas em intenção e a criação de serviços digitais sob medida.
Em entrevista exclusiva ao Próximo Nível, Luciano Saboia, diretor de pesquisa e consultoria em telecomunicações da IDC América Latina, comenta os desdobramentos técnicos, comerciais e estratégicos da IA no setor. “Entre as previsões para 2026, nas companhias de telecomunicações, a IA passa a atuar como camada estrutural das redes”, define.
Segundo Saboia, a diferença em relação aos estágios iniciais de adoção de IA é qualitativa. “Dificilmente vamos tocar um tema de tecnologia sem mencionar a IA. Mas o que temos observado como maior diferenciação para o segmento de telecomunicações é a maneira como a inteligência artificial vai entrar na estrutura das redes e se tornar um diferencial para o cliente”, observa.
A mudança ocorre em um contexto de crescente complexidade operacional. Redes 5G, virtualização, edge computing e múltiplas camadas de serviço tornam inviável a gestão artesanal em larga escala. A incorporação de IA ao core, combinada a práticas de AIOps, portanto, deixa de ser opção e passa a ser requisito estrutural.
Nesse cenário, a IDC projeta que os gastos com IA em telecom na América Latina superem US$ 617 milhões em 2026, com o Brasil respondendo por quase metade do volume, em um crescimento médio anual de 37,2% entre 2024 e 2029. E mais: 67% das operadoras brasileiras já apontam a IA como tecnologia central de suas estratégias.
A transformação não se limita à eficiência. Ao integrar IA aos sistemas de OSS (Operational Support Systems) e BSS (Business Support Systems) abre-se espaço para conectividade programável, serviços sob demanda e modelos como network slicing, permitindo experiências sob medida para diferentes perfis de uso.
Da commodity à personalização orientada a valor
Para Saboia, a aplicação da IA na estrutura técnica das redes é o caminho para superar a comoditização histórica da conectividade. “Hoje, basicamente, o que diferencia a oferta de telecom é velocidade e preço”, constata.
As aplicações de IA, tanto na camada de orquestração automatizada quanto no trabalho das equipes de gerenciamento, passam a moldar as malhas de elementos técnicos da rede. Ao analisar padrões de uso, requisitos de latência, criticidade e perfil de consumo, a inteligência embarcada consegue ajustar parâmetros, priorizar recursos e combinar diferentes componentes da infraestrutura para montar uma configuração específica aos requisitos de cada cliente, tanto no ambiente residencial, quanto no corporativo ou no móvel.
Além da venda de serviços altamente personalizados, surge outra frente de monetização: a exposição de capacidades de rede via APIs Open Gateway. Essas interfaces permitem que aplicações de terceiros consultem informações de rede, que se integram a funções de autenticação, informações geolocalizadas e outros compartilhamentos autorizados, ampliando o papel da operadora como plataforma.
A lógica dos 3Ks: domínios, personas e métricas
A captura de valor, no entanto, exige nova abordagem comercial. Saboia destaca o modelo baseado nos “3Ks”: Key-domain, Key-personas e KPIs.
O primeiro identifica quais domínios em determinada indústria realmente demandam tecnologia. O segundo mapeia quem, dentro da organização, detém orçamento ou influência. “Nas décadas passadas nos habituamos a ter um interlocutor de TI ou de telecom. Hoje, há outros decisores com quem conversar”, compara.
O terceiro elemento conecta a oferta às métricas que importam: eficiência operacional, margem e satisfação do cliente.
A observação de Saboia converge com a avaliação do diretor-geral da IDC Brasil, Luciano Ramos, que ressalta a necessidade, por parte dos provedores e parceiros de tecnologia, de conhecer não apenas os macroprocessos de cada setor, mas também se aprofundar nas tarefas gerenciais e operacionais.
Desafios no Brasil
Saboia ressalta que a adoção tecnológica ocorre de forma distinta entre economias maduras e mercados em desenvolvimento. Em países desenvolvidos, a substituição por tecnologias mais avançadas tende a ser mais imediata. Na América Latina, o ciclo é mais longo e exige justificativa detalhada de retorno sobre investimento (ROI).
O analista nota que o país tem singularidades em seu mercado. “O Brasil é um mercado de competição elevada. Temos três grandes players de rede móvel celular e nenhum dos três tem um market share muito grande, isoladamente, na banda larga”, menciona.
A disputa pelo silício
Um fator crítico constatado pelo analista é a pressão sobre a cadeia global de semicondutores. Para Saboia, a incorporação de IA aos dispositivos e à infraestrutura intensifica uma competição estrutural.
“Os chips e os componentes eletrônicos podem ser embarcados em uma plataforma GPU que vale muitos milhões e é o desejo de todo o hyperscaler de cloud para colocar nos data centers, ou pode vir para o nosso smartphone, ou para o nosso PC, que vale milésimos do preço de um servidor de alta capacidade”, constata.
A concentração da produção em poucos polos adiciona incerteza ao abastecimento e pressiona fabricantes e provedores de infraestrutura.
Atalhos orientados por fatos
Além da tecnologia, Saboia enfatiza o papel dos dados como aceleradores estratégicos. “É muito melhor fazer uma pesquisa para entender o comportamento do cliente do que montar uma oferta, ficar insistindo seis meses e a força de venda retornar dizendo que não teve sucesso”, resume.
A parceria da IDC com a Claro empresas, segundo ele, tem esse propósito: apoiar decisões lastreadas em dados, traduzir particularidades setoriais e antecipar necessidades.
“É esse papel que a gente discute muito aqui com a Claro empresas, no intuito de ser um habilitador tecnológico e de conseguir levar para esse empresário que está pressionado, sufocado com tarefas e trabalhos relacionados a tributo e mão de obra, uma funcionalidade tecnológica que se encaixa à sua realidade”, descreve.
Em meio à nova dinâmica no mercado de TI e telecomunicações, os processos tradicionais de prospecção, decisões e investimentos também têm se modificado. O analista conta que a lógica tradicional de RFP (requisições de propostas) perde espaço. “Processos longos e detalhados cedem lugar a abordagens mais proativas e alinhadas às tendências inovadoras nos setores. O provedor que antecipa demandas e traduz tecnologia para a realidade operacional do cliente tende a ter mais êxito”, avalia.
Ao integrar IA ao core das redes, estruturar ofertas com base em domínios e métricas de negócio e adotar decisões orientadas por fatos, as operadoras ampliam seu papel. De provedoras de conectividade, passam a atuar como plataformas inteligentes capazes de orquestrar infraestrutura, dados e serviços em escala, tanto no “chão de fábrica” quanto na experiência final do cliente.
