Las Vegas voltou a ser ponto de encontro da tecnologia. Ao longo de quatro dias, a CES 2026 reuniu mais de 148 mil participantes e quase 7 mil profissionais de mídia, o que colocou a edição deste ano como a maior desde a pandemia. Para além dos lançamentos de consumo, a feira reforçou a agenda para o público corporativo, com destaque para inteligência artificial industrial, automação, robótica, acessibilidade, longevidade e o impacto das políticas públicas sobre a inovação.
Um dos espaços mais concorridos foi a sessão Inside Washington, que levou à CES discussões diretas com representantes do governo dos Estados Unidos. O foco esteve nas conexões entre inovação, energia, comércio internacional e diretrizes regulatórias. A presença de autoridades e o diálogo com lideranças do setor privado mostraram como decisões políticas passam a influenciar diretamente estratégias corporativas de tecnologia, investimento e expansão global.
Nesse contexto, o presidente da Consumer Technology Association (CTA), Gary Shapiro, conduziu uma conversa aberta com o presidente da FCC, Brendan Carr, sobre os desafios de regulação diante de um ambiente tecnológico em rápida transformação.
A nova edição do Advanced Manufacturing Showcase, resultado de uma parceria entre a CTA e a SME, transformou o Central Hall do LVCC em uma vitrine de soluções industriais. Sistemas de automação, materiais avançados e softwares industriais mostraram como a manufatura norte-americana busca ganhar eficiência, flexibilidade e competitividade. Para executivos e gestores industriais, o espaço funcionou como um mapa das tecnologias que devem orientar investimentos nos próximos anos.
Robótica e IA física avançam para o chão de fábrica
A robótica voltou a ser destaque na CES, agora com uma mudança de enfoque: em vez de aplicações pontuais, os projetos apresentados apontam para robôs integrados a processos produtivos e à vida cotidiana. O destaque foi o Atlas, robô humanoide desenvolvido pela Boston Dynamics, que apresentou movimentos mais fluidos, maior grau de autonomia e capacidade sensorial ampliada.
O Hyundai Motor Group, controlador da Boston Dynamics, confirmou planos de empregar o Atlas em fábricas automotivas a partir de 2028 e anunciou uma estratégia de longo prazo para escalar a produção de robôs. Ao lado grandes players, startups também chamaram atenção com soluções de robótica voltadas à companhia, monitoramento e entretenimento, sinalizando a diversidade de aplicações da chamada inteligência artificial física.
IA industrial e gêmeos digitais
Já na abertura do evento foi destacada a convergência entre indústria e inteligência artificial. O CEO da Siemens, Roland Busch, dividiu o palco com Jensen Huang, CEO da NVIDIA, para detalhar o avanço da parceria entre as duas empresas.
O anúncio principal foi o desenvolvimento de um Sistema Operacional de IA Industrial, pensado para transformar a forma como empresas projetam, simulam e operam sistemas físicos. Busch também apresentou o Digital Twin Composer, solução que integra gêmeos digitais, simulações avançadas e dados de engenharia em tempo real. A ferramenta deve permitir que empresas testem cenários, antecipem impactos e ajustem projetos com maior precisão, reforçando a digitalização industrial.
A edição de 2026 da CES também marcou a inauguração do Palco de Acessibilidade, ampliando o espaço dedicado à inclusão. Sessões abordaram como tecnologias digitais podem reduzir barreiras e ampliar o acesso a serviços, produtos e experiências. O Desafio de Inovação da Fundação CTA, por exemplo, apresentou soluções de saúde digital voltadas à autonomia e à qualidade de vida.
Em paralelo, a AgeTech Collaborative retornou pelo segundo ano consecutivo com foco em longevidade e envelhecimento ativo. Startups e executivos apresentaram soluções que combinam monitoramento de saúde, conectividade e inteligência de dados, apontando um mercado em expansão para empresas interessadas em inovação voltada ao público sênior.
Criatividade, estratégia e grandes experiências

No C Space, dedicado a marcas e comunicação, o CEO da Havas e presidente do conselho da Vivendi, Yannick Bolloré, destacou como a tecnologia amplia o potencial criativo. Ele anunciou a AVA, plataforma de inteligência artificial voltada a transformar briefings em soluções criativas de forma acelerada, reforçando o papel da IA como ferramenta estratégica para marketing, conteúdo e storytelling corporativo.
A discussão sobre estratégia ganhou mais densidade com a gravação ao vivo do podcast All-In, que reuniu executivos e investidores para debater como a IA está definindo decisões de investimento, modelos de negócio e competitividade empresarial.
Mesmo com o foco corporativo ampliado, a CES manteve espaço para avanços em tecnologias de visualização. Novos painéis LED RGB, combinados a evoluções em pontos quânticos e filtros de cor, indicam uma nova etapa na fidelidade de imagem, com impacto direto em entretenimento, publicidade e aplicações profissionais.
A Lenovo, por exemplo, levou seu Tech World para o Sphere, em Las Vegas, em uma apresentação imersiva sobre aplicações práticas de inteligência artificial. Além de anunciar a plataforma Lenovo Qira, a empresa apresentou novos dispositivos e reforçou parcerias com líderes do ecossistema tecnológico global.
O encerramento do primeiro dia, com a tradicional Recepção Internacional, reforçou o caráter global da CES como espaço de networking e construção de parcerias. A edição de 2026 deixou claro que a feira vai além do lançamento de produtos. Ela funciona como um termômetro das transformações que afetam indústrias, políticas públicas e modelos de negócio.
Para o público corporativo, a mensagem foi: inteligência artificial industrial, automação, acessibilidade, longevidade e integração entre tecnologia e estratégia já não são tendências distantes.
