O desenvolvimento de computadores quânticos em escala comercial ganhou um novo capítulo com a publicação, na revista Nature, de uma análise do físico Henry Legg, professor da Universidade de St Andrews, na Escócia. O pesquisador questionou aspectos metodológicos e do software utilizado em um estudo da Microsoft sobre qubits topológicos. As dúvidas surgem logo após a gigante de tecnologia reiterar sua meta de entregar um sistema quântico totalmente funcional até 2029, segundo reportagem do portal Terra.
A controvérsia envolve outro artigo na Nature, publicado em 2025, no qual a Microsoft alega ter desenvolvido um programa para identificar uma lacuna de energia em um fio altamente condutor. Essa lacuna é considerada um passo essencial para estabilizar os qubits, as unidades fundamentais do processamento quântico, que são extremamente frágeis e suscetíveis a perderem seu estado em frações de segundo devido a interferências do ambiente.
Na análise de Legg, a ferramenta de software utilizada pela empresa apresentava erros de programação que teriam levado a resultados inconsistentes. Ao examinar um conjunto mais amplo de dados divulgado pela Microsoft, o físico afirmou ter encontrado apenas ruído aleatório, sem evidências suficientes da fase topológica buscada pelos pesquisadores.
Questionamentos anteriores
Diferentemente de concorrentes como IBM e Google, que trabalham com outras arquiteturas de qubits, a Microsoft aposta há cerca de duas décadas em uma abordagem baseada em qubits topológicos. Essa abordagem busca criar qubits a partir dos chamados modos zero de Majorana, estados quânticos previstos teoricamente e estudados por sua potencial resistência a interferências externas.
Embora tenha afirmado publicamente ter detectado a partícula, a descoberta nunca foi validada por uma publicação científica com revisão por pares. Os questionamentos ganharam força após os editores da Nature adicionarem uma nota ao artigo de 2025 da Microsoft, afirmando que “os resultados neste manuscrito não representam evidência para a presença de modos zero de Majorana nos dispositivos relatados”.
Os questionamentos atuais se somam a episódios anteriores envolvendo pesquisas relacionadas à empresa. Dois artigos científicos anteriores apoiados pela Microsoft já haviam sido retratados pela revista Nature, incluindo um documento publicado por um laboratório parceiro em 2021. Outros dois trabalhos da empresa também receberam notas editoriais nas revistas Nature e Science relacionadas a questionamentos sobre os experimentos.
Compartilhamento de dados também é questionado

Segundo reportagem da BBC, o professor Legg comparou a situação à abertura de um relógio que, por dentro, não apresentaria o mecanismo esperado. Outro ponto levantado por pesquisadores é a disponibilidade dos dados experimentais para análise independente e reprodução dos resultados por outros grupos científicos.
Em resposta aos questionamentos, a empresa afirmou que compartilhou seus dados com a agência de defesa dos Estados Unidos, a DARPA, para avaliação independente. A Microsoft justificou a decisão de não disponibilizar todo o material à comunidade científica por razões de sigilo e sensibilidade comercial.
Pesquisadores independentes, por outro lado, defendem maior acesso aos dados e a possibilidade de reprodução dos resultados por outros laboratórios como etapas importantes para a validação científica das descobertas.
Governo americano quer sistema funcional até 2028
Apesar das críticas e das notas da Nature, a Microsoft mantém sua posição e afirma que seu programa quântico continua avançando no campo prático. A empresa argumentou ainda que o software criticado por Legg não foi responsável por “interpretar” as medições fundamentais de suas pesquisas.
Paralelamente, a gigante de tecnologia destacou o lançamento da segunda geração do seu chip quântico, o Majorana 2, sustentando que o novo dispositivo é mil vezes mais confiável que o utilizado na geração anterior. A empresa também afirma que os avanços permitiram antecipar sua meta de desenvolver um computador quântico escalável.
Os questionamentos ocorrem em um momento de aumento dos investimentos públicos e privados em computação quântica. Nos Estados Unidos, o governo transformou o setor em uma das prioridades de ciência e segurança nacional, com investimentos de US$ 2 bilhões e a meta de obter um sistema quântico científico funcional até 2028.
