TVRO no Brasil profundo Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025

TVRO conecta o “Brasil Profundo” com novos modelos de negócio

3 minutos de leitura

Painel no SET Expo 2025 mostra como a tecnologia via satélite amplia cobertura, regionaliza conteúdos e abre oportunidades para anunciantes.



Por Fernando Gaio em 29/08/2025

O Congresso SET EXPO 2025 é um palco tradicional para discussões sobre o futuro da televisão no Brasil e entre os temas mais espinhosos está a manutenção das transmissões nas regiões mais remotas e carentes do país. O painel “Desafios e oportunidades na entrega de conteúdo de qualidade para regiões carentes via TVRO” contou com a participação de Guilherme Saraiva, Diretor de Vendas Mídia e Satélite da Claro empresas e conselheiro da SET, que apresentou a TVRO como solução presente e economicamente viável para democratizar o acesso à TV de qualidade em todo o território nacional.

No Brasil, a TVRO (Television Receive Only) teve papel fundamental na interiorização da televisão, permitindo que sinais das grandes redes alcançassem todo o território com distribuição via satélite e estruturassem o modelo de afiliadas e retransmissoras da TV aberta.

Guilherme Saraiva (Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025)

Saraiva iniciou sua fala constatando que o desafio da cobertura já foi superado. Atualmente, o sinal de TVRO alcança todos os cantos do Brasil com uma oferta de 160 canais. Um avanço significativo foi a regionalização do sinal de grandes redes como Globo, SBT, Record, Band e Amazon Sat, permitindo que telespectadores de diferentes estados tenham acesso à programação e ao jornalismo relevantes para sua realidade.

Os dados apresentados desfazem o mito de que a TVRO é um mercado residual. A penetração é massiva em regiões onde a TV aberta terrestre tem dificuldades de chegada:

  • No Nordeste, 30% dos lares com TV são atendidos por TVRO.
  • No Norte, 20% dos lares com TV dependem da tecnologia.
  • Estados como o Piauí ultrapassam a marca de 40% de domicílios com TVRO.

Um ponto destacado por Saraiva é que, embora parte desse parque (60% no Nordeste) tenha sido impulsionado pelo programa governamental de doação de kits, uma parcela significativa foi adquirida pelos consumidores no varejo, comprovando o valor e a força do serviço.

O salto, no entanto, vai além da quantidade de canais. Saraiva enfatizou a chegada de um novo modelo de fazer televisão, viabilizado pela eficiência da TVRO. Ele apresentou casos emblemáticos.

O primeiro é a Rede Amazônica em Ariquemes (RO), uma afiliada da Globo que opera sem sede física, com apenas dois funcionários (um vendedor em home office e um produtor e jornalista local). Todo o suporte técnico e de conteúdo é gerenciado a partir de Manaus, provando que é possível produzir jornalismo local com custos drasticamente reduzidos.

O segundo caso é a Globo Bahia e o SBT Minas, ambos dividiram seus estados em micro-regiões, oferecendo conteúdo ainda mais segmentado e abrindo espaço para publicidade localizada. Segundo Saraiva, é possível expandir esse modelo para mais 100 micro-regiões até o final do ano.

Um mercado gigantesco para anunciantes

A palestra mostrou o potencial econômico dessa solução. Com um kit custando em torno de R$ 200 no varejo, o acesso é facilitado. Saraiva estimou um mercado potencial de 24 a 35 milhões de domicílios, principalmente em cidades com até 100 mil habitantes.

A oportunidade para emissoras e anunciantes é clara. Usando uma métrica conservadora, Saraiva calculou que uma emissora regional que consiga gerar uma receita de apenas R$ 1 por mês por domicílio com TV em uma região com 100 mil casas, atingiria R$ 100 mil mensais – valor que cobre o custo de um canal TVRO (cerca de R$ 35 mil/mês). Isso abre espaço para grandes marcas, mas principalmente para pequenas empresas que podem anunciar na TV de forma acessível.

Para finalizar, Guilherme Saraiva fez um convite direto às emissoras: olhem para o mapa de regionalização, que ainda têm muitas lacunas sem cobertura local, como o Maranhão, que possui 750 mil receptores, e enxerguem o potencial. A conta é simples e o modelo está provado. A TVRO não é apenas uma solução de política pública, é uma plataforma de negócios escalável e essencial para conectar o Brasil, oferecendo qualidade e conteúdo local.

Alexandre Vila (Foto: WL Imagens/ SET Expo 2025)

No debate conduzido por Alexandre Vila, gerente de transmissão de Rádio e TV do Grupo Bandeirantes São Paulo, foi confirmada a importância da coexistência de diferentes modelos de distribuição terrestre, satélite e internet para atender a diversidade geográfica e social do país. Também foi enfatizado que a internet tem reduzido o atraso nas transmissões, mas ainda enfrenta limitações de escala em grandes eventos, enquanto a TVRO mantém a vantagem de alcance especialmente em regiões onde outras tecnologias não chegam. A conclusão é a de que há uma complementaridade, em que cada tecnologia se adequa ao perfil do usuário e ao cenário de distribuição.

A proposta é avançar gradualmente nessa convergência, preservando a compatibilidade com os receptores já implantados — cerca de 14 a 16 milhões de caixas — e explorando benefícios imediatos, como segmentação de audiência, aplicativos, medição de consumo e inserção dinâmica de publicidade.



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